O tom mais propenso ao risco pelo mundo favoreceu ontem os ativos brasileiros. O Ibovespa retomou o patamar dos 100 mil pontos, enquanto o dólar chegou a ceder até R$ 5,5344 na mínima do dia. Assim como visto ao longo de toda a semana, o sopro de otimismo veio da eleição presidencial americana, com perspectiva de vitória do democrata Joe Biden na Casa Branca e maioria republicana no Senado dos EUA. Este movimento foi reforçado, no fim da tarde, pela linha mais favorável a estímulos do presidente do Federal Reserve (Fed, o BC americano), Jerome Powell.

Apesar do alívio no curto prazo, a eleição americana tem efeito limitado no mercado brasileiro, cujo cenário permanece desafiador principalmente no âmbito fiscal, segundo profissionais ouvidos pelo Valor. Até o fechamento desta edição, Biden liderava a disputa, mas nada estava definido.

O Ibovespa fechou com alta de 2,95%, aos 100.751 pontos. Este foi o terceiro pregão consecutivo de ganhos do Ibovespa, que avança 7,24% na semana. Já o dólar comercial terminou negociado a R$ 5,5459, queda de 1,92% - menor patamar desde 9 de outubro, quando chegou a R$ 5,5259.

No mercado de juros, a taxa do contrato de DI para janeiro de 2022 caiu para 3,43% (3,46% no ajuste a anterior), enquanto nos vencimentos mais longos, o rendimento do DI para janeiro de 2027 recuou para 7,43%, de 7,55%.

O desempenho dos ativos locais foi em linha com o exterior. Em Nova York, o Dow Jones subiu 1,95%, enquanto entre os pares emergentes, o índice S&P/BMV IPC, do México, avançou 2,20%.

“Os investidores estão mais confortáveis e propensos a risco, e emergentes começam a ser rota novamente de investimentos, um sinal de mercado mais ameno com o fim da incerteza”, afirma Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimentos.

O pano de fundo foi traçado pelo avanço do democrata Joe Biden na disputa presidencial americana. Embora ainda haja bastante incerteza, prevalece a leitura de que o Congresso deve seguir dividido com maioria dos democratas na Câmara e dos republicanos no Senado.

Embora o efeito no curto prazo seja positivo pela redução de uma incerteza e potencial aprovação do pacote de estímulo fiscal americano, o resultado da eleição americana tem efeito limitado no mercado brasileiro, segundo o chefe de ações para América Latina do Credit Suisse, Emerson Leite.

Ele explica que uma vitória de Biden é vista como marginalmente mais positiva para mercados emergentes, por conta de um provável enfraquecimento global do dólar e da redução de tensões comerciais com a China. No entanto, o que será determinante para o rumo do Ibovespa é a situação local.

“Dado que temos os nossos próprios desafios, como as incertezas sobre o que vai acontecer com as reformas ou a situação fiscal, não é a eleição nos Estados Unidos que vai determinar o rumo do mercado brasileiro”.

O profissional afirma ainda que um dos grandes entraves para investimentos estrangeiros por aqui é a volatilidade cambial. O investidor “pode acertar uma ação para entrar, mas a variação no câmbio coloca qualquer ganho em risco. Nos últimos anos, muita gente que se posicionou aqui, em dólar, saiu perdendo”.

Alexandre Espírito Santo, economista da Órama Investimentos, concorda que “a novidade do Biden com um Senado republicano é algo que dá uma lufada de otimismo no curto prazo, mas não sei se é uma onda consistente”. Segundo ele, o Ibovespa deve encerrar 2020 entre 100 mil e 105 mil pontos diante das incertezas em torno do rumo das contas públicas brasileiras.

Próximo do fim do pregão, os mercados também ganharam força com o discurso do presidente do Fed, Jerome Powell. Embora o comunicado da decisão de juros do BC americano tenha basicamente repetido a mensagem do último encontro, Powell adotou um tom mais cauteloso e se mostrou receoso com a curva de contágio da covid-19 nos EUA e salientou que o BC americano “não está sem munição” para ajudar a economia.

 

Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelle Gutierrez, Lucas Hirata, Marcelo Osakabe e Lucinda Pinto - São Paulo, 06/11/2020