A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, divulgada ontem, mostra um colegiado mais realista e menos inclinado a novos cortes de juros ou a manter estímulos a todo custo, que muitos enxergaram em comunicado divulgado na semana passada.
O documento revela que a discussão sobre eventual espaço para cortes de juros, em reunião na semana passada, restringiu-se ao campo prudencial e não à política monetária. Dito de outra forma: ninguém defendeu deixar uma porta aberta a corte de juros para estimular a economia.
A cláusula de escape fiscal para o “forward guidance” mostra-se mais dura. Medidas do governo e do Congresso que levem a uma piora na dinâmica da dívida, mesmo que formalmente o teto de gastos seja mantido, podem levar à retirada da promessa de não subir a taxa básica tão cedo.
Por fim, a projeção de inflação de 3,1% do colegiado para 2021 não parece tão diferente da do resto do mercado financeiro, a julgar pelo mapa da distribuição de expectativas divulgada pela autoridade monetária, em um outro documento. Apenas algo como 20% dos analistas preveem inflação ao redor de 3,5% em 2021. Algo como três quartos dos analistas projetam inflação de até 3,35% para o ano que vem.
A ata do Copom detalha por que o colegiado decidiu manter, na sua comunicação, o aviso de que o espaço para cortar juros, se houver, é pequeno. Muitos analistas entenderam a manutenção dessa mensagem como uma indicação de intenção de cortar juro.
O documento divulgado ontem mostra que não é nada disso. Ele faz um claro corte entre questões prudenciais e de política monetária. No que toca a política monetária, o colegiado fez uma avaliação do cenário básico e balanço de riscos e concluiu que, naquela reunião, era apropriado o estímulo criado pelos juros de 2% ao ano e “forward guidance”.
Alguns vão dizer que o Banco Central não fechou a porta para eventuais novos cortes de juros. De fato, a porta segue aberta. Mas não há uma indicação futura, nenhum vislumbre de que as condições adiante serão propícias. A cada reunião, provavelmente, o BC vai olhar o balanço de riscos e as projeções de inflação para avaliar se há espaço para eventuais reduções adicionais de juros.
Na ata, o Copom dá um pouco de sua função reação, quando diz que a assimetria do balanço de riscos - causada pela política fiscal - compensa o cenário básico com inflação abaixo da meta. Ou seja, para cortar os juros, tem que mudar esse quadro, com melhoria no balanço de riscos e/ou no cenário básico de inflação.
Sobre o “forward guidance”, o Copom parece disposto a julgar se as decisões tomadas pelo Congresso e governo mantêm o regime fiscal. O colegiado poderia apenas dizer que avaliaria a continuidade do regime fiscal pela reação dos mercados. Mas a ata entra numa discussão mais concreta sobre a política fiscal em si, sobre teto e evolução da dívida. Os requisitos para dizer se houve uma eventual mudança no regime fiscal são menos rigorosos do que apenas uma queda do teto de gastos.
O colegiado, por outro lado, detalhou como vai agir caso o “forward guidance” caia. Nessa situação, volta ao regime de metas de inflação, avaliando as projeções no cenário central e balanço de riscos. A ata formaliza o que vem sendo dito por dirigentes do BC: não existe relação mecânica entre eventual queda do “forward guidance” e alta de juros.
Por fim, as projeções de inflação do BC no cenário básico - um dos condicionantes da duração do “forward guidance” - parecem mais alinhadas com o consenso de mercado, com a divulgação do mapa do que esperam os analistas econômicos. O BC não está sozinho no lado otimista - apenas não se alinhou ao grupo mais pessimista que engrossou com o IPCA-15.
O Banco Central, na ata, detalha as premissas de sua visão de que a alta de preços será temporária. O documento diz que seu cenário conta com uma “reversão” da elevação extraordinária dos preços de alguns produtos, afetados pela redução temporária na oferta em conjunção com um aumento temporário da demanda.
Esse é o cenário do Copom, e todos podem acompanhar se, de fato, ele será confirmado ao longo do tempo. O próprio colegiado informa, desde o comunicado da semana passada, que “monitora com atenção” a evolução desse cenário de inflação. Ou seja, não está abraçado incondicionalmente com esse cenário benigno.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro - de São Paulo, 04/11/2020

