Ao se aproximar do fim do ciclo de baixa da taxa básica de juros, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central comunicou ontem que vai adiar qualquer sinalização sobre decisões que serão tomadas no começo de 2018 para, até lá, analisar a evolução das perspectivas para a inflação. É o que diz a ata da reunião da semana passada, que explica as razões para o último corte de 0,75 ponto percentual na Selic, de 8,25% a 7,5% ao ano, e indica os fatores que vão determinar os seus próximos passos.

O Copom já havia sinalizado, em comunicado divulgado na semana passada, que no seu próximo encontro, de dezembro, iria promover uma "redução moderada na magnitude de flexibilização". Essa é uma indicação de que pretende cortar os juros em 0,50 ponto percentual, para 7% ao ano, o menor percentual já registrado no regime de metas de inflação.

A dúvida entre os especialistas em política monetária era sobre o passo seguinte, a ser tomado na reunião do Copom dos dias 6 e 7 de fevereiro de 2018. No comunicado, o Copom havia retirado aviso de que pretendia fazer um fim gradual no ciclo de corte de juros, o que para alguns analistas parecia ser um indicativo de que o corte na taxa em dezembro seria o último.

Na ata, o Copom diz que quer tempo para decidir. "Houve consenso em manter liberdade de ação e adiar qualquer sinalização sobre as decisões futuras de política monetária de forma a incorporar novas informações sobre a evolução do cenário básico e do balanço de riscos", diz o documento.

O BC decide a taxa de juros com vistas ao cumprimento da meta de inflação de 2018, fixada em 4,5%. As projeções da autoridade apontam variação do IPCA de 4,3% no ano que vem, considerando que os juros caiam a 7% em fins de 2017 e fiquem nesse patamar em 2018, subindo para 8% ao longo de 2019.

Essas projeções indicam basicamente que, para cumprir a meta de 4,5%, os juros têm de ficar ao redor de 7% ao ano. Mas o BC tem enfatizado, desde setembro, que acompanha a evolução de pelo menos dois fatores positivos que, caso se concretizem, podem baixar as projeções de inflação para 2018 e anos seguintes, abrindo espaço para maior flexibilização do juro.

O comitê diz que avalia as chances de a baixa inflação de alimentos e dos produtos industriais se espalhar para outros preços da economia. Também acompanha se a baixa inflação deste ano, que o Copom prevê em 3,3%, vai se transferir para 2018, por um mecanismo que os economistas chamam de inércia. O colegiado também avalia dois riscos negativos. Um deles é uma eventual frustração na aprovação das reformas econômicas, que poderia azedar o humor do mercado e levar à alta dos prêmios de risco e do dólar, fazendo com que a inflação fique maior do que os 4,3% projetados para 2018. 

Outro risco é um eventual revés no ambiente internacional. O Copom diz na ata que há tempo para a política monetária reagir a qualquer um desses cenários. "O Copom avaliou que a política monetária tem flexibilidade para reagir a riscos para ambos os lados, tanto ao risco de que efeitos secundários de choques de oferta e propagação do nível corrente baixo de inflação produzam inflação prospectiva abaixo do esperado, quanto ao risco de um revés no cenário internacional num contexto de frustração das expectativas sobre as reformas e ajustes necessários." Na ata, o BC volta a  dizer que a conjuntura econômica "prescreve política monetária estimulativa".

O colegiado relativizou os impactos dos recentes aumentos da energia elétrica, incluindo a alta de 43% na bandeira vermelha. O BC diz que as altas foram incorporadas no seu cenário básico e que, nas discussões entre os seus membros, a conclusão é que essa alta não deve ser combatida com juros, a não ser que se espalhe de forma generalizada para a inflação.

O diagnóstico do BC é que a economia deve seguir trajetória de retomada gradual. O colegiado debateu "os dados mais suaves de atividade referentes ao mês de agosto, mas também a possibilidade de uma retomada mais forte à frente". A sinalização é que a evolução da atividade, salvo grandes surpresas, deve ter implicações limitadas na condução da política monetária.


Fonte: Valor - Finanças, por Alex Ribeiro e Edna Simão , 01/11/2017