Política fiscal, tributária e trabalhista, infraestrutura, flexibilização dos preços administrados, câmbio, educação. A pauta de preocupações do empresariado para o ano que vem espelha as incertezas políticas e a perspectiva de uma desaceleração maior no ritmo dos negócios antes da acomodação ao início do próximo mandato da presidente reeleita. O cenário foi apresentado por participantes da 3ª edição da Maratona PME, promovida no início do mês pelo Valor em São Paulo. O evento contou com cerca de 1,2 mil participantes, um público formado por empresas com até 200 funcionários de 18 setores econômicos.
"2015 será um ano de ajuste", previu Rodrigo Galindo, CEO do Grupo Kroton Educacional. A questão fiscal será uma das chaves. Ele lembra que embora a inflação seja um dos itens mais sensíveis para as pequenas e médias empresas, deve sofrer a pressão do reajuste de preços administrados, como os da energia e da gasolina.
Os demais quesitos, incluindo aqueles mais estruturantes como reforma tributária e revisão da política industrial, vão depender da velocidade destes, acrescentou. "No que diz respeito às PMEs, o Supersimples é um tema que precisa ser aprofundado. O segmento também sofre por falta de investimentos em infraestrutura e por questões que não nos afetam diretamente, como a guerra fiscal entre municípios", avalia.
Para Galindo, ajuste fiscal, ajuste da inflação, reforma tributária, reforma política e política industrial são temas essenciais para maior tranquilidade do segmento empresarial no país, além da rediscussão e flexibilização das leis trabalhistas. "Não é perder ou extrair direitos, mas as relações trabalhistas se modernizaram mais que as leis. De novo, as mais afetadas são as pequenas", diz - a flexibilidade marca o perfil do trabalho do grupo, com 37 mil funcionários, grande parte professores com horários móveis.
Supersimples, panorama tributário, câmbio e reforma trabalhista estão na agenda de Caito Maia, presidente e criador da Chilli Beans. "A maior reivindicação para o novo governo é um modelo econômico que corrija barbaridades como os bilhões que estão sendo gastos por consumidores brasileiros fora do país. Esse dinheiro era para estar no bolso das empresas brasileiras", aponta. Ele acredita que a revisão fiscal poderia mirar questões como o escalonamento de impostos para faixas superiores aos R$ 3,6 milhões definidos para o Supersimples, que contribui para limitação do crescimento.
"Temos franqueados que começam a torcer para não mudar de faixa, porque o imposto salta de 8% para 25%. A política de impostos deve deixar o crescimento acontecer. O formato fiscal brasileiro não é de fomento, é de morte", defende.
Para o ano que vem, o empresário destaca preocupações com o câmbio e o trabalho, já que hoje, 80% dos produtos direcionados aos 620 pontos da rede são produzidos fora do país. "O cenário do dólar é fatal para mim", afirma. Segundo ele, a parcela dos 20% restantes, fabricados atualmente em Montes Claros (MG), poderia ser bem maior caso a produção contasse com algum tipo de estímulo, inclusive na área trabalhista.
Com quase 500 mil funcionários espalhados pelo país, Luiz Mattar, co-fundador da Tivit, é outro que destaca a necessidade de reformas trabalhistas. "As pequenas são as mais penalizadas pela inflação decorrente do aumento dos gastos nesta área", acredita. Ele coloca no alto das preocupações para o ano que vem a luta contra a alta da inflação, impactada por gastos governamentais, e o controle da corrupção, e diretamente relacionada à produtividade e rentabilidade das empresas.
Embora destaque a melhoria nos últimos anos na infraestrutura de telecomunicações que suporta as atividades em sua área de atuação, a prestação de serviços de TI, o empresário apontou a necessidade de investimentos em infraestrutura de transportes - rodoviária, portuária - como um dos quesitos relevantes para que o país consiga ganhar mais competitividade global.
A questão também foi abordada por Malte Huffmann, co-fundador da Dafiti, um dos maiores varejos eletrônicos de moda do país, diretamente afetado pelos custos relacionados aos transportes. Segundo ele, custos logísticos e burocracia são alguns dos maiores entraves para o segmento. "Em um país tão grande como o Brasil seria importante termos mais opções de transporte, que possibilitariam trabalharmos com custos mais baixos", diz.
Huffmann aponta também que medidas para facilitar a abertura de empresa e regras simplificadas para as mais eficientes podem ajudar o desenvolvimento dos negócios, pois as pequenas nem sempre têm estrutura para lidar com todos os trâmites burocráticos e com as complexas regras trabalhistas e tributárias.
A simplificação do sistema tributário e o investimento em logística minimizariam a complexidade das operações, com eficiência e base de custo menor rendendo mais margem para maior competitividade em preços e qualidade de serviços, impactando o consumidor. "Isso estimularia o consumo e tornaria o Brasil ainda mais atraente para novos investimentos", acredita.
Já para o presidente do conselho de administração da Cosan, Rubens Ometto Silveira Mello, a infraestrutura conta com projetos bem encaminhados no país. Agora, avalia, falta gestão para colocar as coisas em prática - pelo menos no que diz respeito a transportes. Ele acredita também que a política de preços administrados deve chegar ao fim, pelo menos no que diz respeito à energia. "O governo precisa deixar as coisas mais soltas", afirma.
De acordo com ele, a reorganização dos preços da gasolina acenada por ambos os candidatos deve contribuir para a reorganização do etanol. "Há espaço para o retorno da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico)", avalia. Mesmo assim, Ometto acredita que o setor ainda vai sofrer algum tempo, já que são poucas as empresas capitalizadas o suficiente para retomar o crescimento mais agilmente.
Paulo Borges, CEO da Luminosidade e diretor de criação da São Paulo Fashion Week, lembrou a necessidade de colocar a educação em foco. "Se as pessoas não são qualificadas, os processos são mais custosos, mais demorados e mais suscetíveis à concorrência externa", analisa. "É mais caro administrar pessoas com baixa qualidade do que qualificar para que entreguem mais em produção, inovação e transformação."
Segundo ele, isso vale particularmente para um setor como o da moda, uma indústria de cauda longa com mais de 300 mil empresas, das quais mais de 270 mil são de micro ou pequeno porte, e com uma cadeia de processos gigantesca impactada pelas diferentes políticas financeiras e tributárias de cada estado.
"Tudo isso congela a capacidade do Brasil de ser ágil. Nossos custos são altíssimos. A cascata de impostos sobre a cadeia da moda é maior, porque processos vão e voltam até o produto final ficar pronto e sobre eles incide tributação", acredita.
Para Borges, isso faz do país um player pouco competitivo do ponto de vista global - o que salva o país, diz, é o porte do mercado interno. "Vamos passar vinte anos com o desejo de consumo latente nessa massa de classe média que está fortalecendo a economia."
Fonte: Valor, por Martha Funke, 31/10/2014

