
Impulsionada por indústria e comércio, a intenção de investimentos da iniciativa privada ensaia retomada nos próximos meses, embora ainda esteja longe de alcançar patamar pré-pandemia, segundo leitura da Sondagem de Investimentos da Fundação Getulio Vargas (FGV).
No levantamento trimestral, divulgado com exclusividade para o Valor, indústria, serviços, comércio e construção sinalizam maior intenção de investimentos nos próximos 12 meses até o terceiro trimestre, ante o observado de abril a junho - quando houve retração recorde.
A pesquisa consultou 4.050 empresas. Os setores industrial e de varejo comandam a reação, favorecidos por demanda em alta de bens de consumo não duráveis, como alimentos, e vendas pela internet, explicou Rodolpho Tobler, economista da FGV responsável pelo estudo.
Embora tenha classificado o resultado como positivo, ele ressalva: em torno de um terço dos empresários dos quatro setores ainda demonstra incerteza em fazer investimentos em 12 meses. “Essa parcela ainda é muito alta.”
Ao detalhar a evolução do Indicador de Investimentos, Tobler informou que foram apuradas altas recordes no terceiro trimestre. Os índices medem o interesse do empresariado em investir em 12 meses. Quanto mais altos, maior a intenção. Na indústria, o indicador mostrou a mais intensa alta entre os segmentos, com aumento de 47,8 pontos, ante segundo trimestre, para 104,1 pontos. No comércio, subiu 31,7 pontos, para 109,9 pontos; na construção, houve avanço de 29,7 pontos, para 94,3 pontos; e em serviços, alta de 33 pontos, para 91,4 pontos.
“É preciso contextualizar: essas elevações foram recordes, mas influenciadas por base de comparação muito baixa” disse Tobler, referindo-se aos resultados do segundo trimestre, auge do impacto negativo da pandemia na economia. “E, somente indústria e comércio se posicionam acima de 100 pontos no terceiro trimestre.”. Acima dos 100 pontos, o indicador é favorável.
Durante a pandemia, mesmo com restrições de circulação social, alguns segmentos tiveram aumento de demanda, afirmou Tobler - casos de alimentos e e-commerce. “Bens duráveis, como procura por eletrodomésticos, também mostraram alguma reação”, disse, acrescentando que isso foi favorecido pelo começo do pagamento do auxílio emergencial.
As intenções de investimento de construção e de serviços ainda operam abaixo de 100 pontos. “A construção já estava em crise antes da pandemia”, disse. “E serviços devem demorar mais a recuperar, em comparação com outros setores.” Para ele, enquanto não houver vacina, será mantida cautela maior em consumo de serviços, como bares e restaurantes.
Outro aspecto ressaltado por Tobler é que, mesmo com sinais positivos, a intenção de investimentos nos setores ainda opera abaixo de antes da pandemia. Na sondagem do primeiro trimestre, a FGV apurou 119,5 pontos em indústria; 117,1 pontos em serviços; 126 pontos em comércio; e 107,7 pontos em construção.
Ao ser questionado quando a iniciativa privada voltará a mostrar mesmo patamar de intenção de investimentos de antes da pandemia, o técnico foi cauteloso. Ele não descartou que isso pode acontecer meados de 2021. Mas frisou que o grau de incerteza na economia ainda é muito alto.
Na mesma sondagem da FGV, o empresariado foi questionado sobre o grau de certeza de investir em 12 meses. Na indústria, 28,2% declararam-se incertos; em serviços, a parcela de incerteza foi de 49,1%; em comércio, 35,7%; e construção, 40,4%. “A pandemia é uma situação muito atípica; dificilmente alguém estaria preparado para esse cenário”, afirmou. “Contratação e investimento já não são decisões fáceis em ambiente normal. É preciso tornar o ambiente de negócios mais favorável ao investimento.”
Para Tobler, o governo poderia ajudar, acelerando reformas, e aprimorando discurso de política econômica. “Quanto menos incerteza existir na economia, maior será a intenção de investimentos dos empresários”, resumiu.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Alessandra Saraiva - Rio, 29/10/2020

