A pandemia de covid-19 afetou o mercado paulistano de escritórios comerciais de alto padrão no terceiro trimestre. Mais áreas foram devolvidas pelas inquilinas aos proprietários do que contratadas no período, seja por causa do sistema de “home office”, adotado em função da quarentena, ou da crise econômica, que tem resultado em demissões e menos necessidade de espaço.

Com as devoluções e o elevado volume do novo estoque recebido pelo maior mercado imobiliário do país, a taxa de vacância, ou seja, o aumento do percentual de áreas vagas em relação ao total, cresceu. A maior parte das consultorias ouvidas pelo Valor - Colliers Internacional Brasil, JLL, Newmark Grubb e SiiLA - informou que, de julho a setembro, as devoluções superaram as contratações. Apenas a Cushman & Wakefield registrou absorção líquida positiva no período.

Levantamento da Newmark Knight Frank aponta que o novo estoque - 104,3 mil m2 (incluindo, além das regiões principais, Barra Funda e Alphaville) - foi o maior a chegar ao mercado paulistano em um trimestre desde 2018. Houve absorção líquida negativa em 63 mil metros quadrados, e a vacância passou de 16,4% para 19,9%. “Entre 50% e 60% do volume devolvido já estava planejado antes da pandemia, mas o restante pode ter algum efeito do ‘home office’”, diz a presidente da consultoria Newmark Knight Frank, Marina Cury.

No período, as maiores devoluções, de acordo com a consultoria JLL, foram feitas por Bulls Holding (9,8 mil m2), Nextel (9,7 mil m2) e Sky (4,9 mil m2). Ao mesmo tempo, foram entregues, no trimestre, o B32 - na avenida Faria Lima, zona sul de São Paulo - e o Castelo Branco Office Park, em Alphaville, com 49 mil m2 e 21 mil m2, respectivamente.

Apesar do novo estoque elevado, os preços pedidos de locação aumentaram, como consequência da oferta de lajes corporativas com valor médio maior, caso do B32.

No mercado, muito se comenta sobre readaptações a serem feitas pelas inquilinas no espaço ocupado. “Mas ninguém fala quando e quanto [da área será readaptada]”, diz a executiva da Newmark, acrescentando que é provável haver reduções se o trabalho à distância for oficializado. Há 106 mil metros quadrados de devoluções previstas, com fatia de 20% a 30% referente a mudanças, conforme a Newmark.

Nos cálculos da Colliers, as novas locações de escritórios dos padrões A e AA somaram, no trimestre, 57,5 mil m2 - a locação de áreas do B32 pelo Facebook e pela Shopee Brasil respondeu por mais de 28 mil metros quadrados. Mas o total devolvido, no mercado, chegou a 80,3 mil m2, resultando em quase 22 mil metros quadrados de absorção líquida negativa. O “home office” pesou mais do que a crise na devolução de espaços, no entendimento do presidente da Colliers, Ricardo Betancourt.

Para o presidente da SiiLA, Giancarlo Nicastro, o setor financeiro é o mais propenso a devolver escritórios por ter sido um dos maiores contratantes de áreas, nos últimos anos, e o que melhor se adaptou ao trabalho remoto na quarentena. No trimestre, a absorção líquida ficou negativa em 30 mil metros quadrados, indicador que chega a 69,6 mil metros quadrados negativos se incluídos prédios de padrão B.

Nicastro avalia que o ritmo de devolução de áreas tende a ser mantido. “A economia não está reagindo. Com o desemprego elevado, é muito difícil acreditar que a ocupação vai voltar a crescer. As empresas querem reduzir custos fixos”, diz o presidente da SiiLA.

Fábio Maceira, presidente da JLL, acredita que haverá “mais movimentação de devoluções de espaço do que já ocorreu”, mas pondera que as empresas ocupantes tendem a adotar modelo que inclua presença em escritórios e “home office”, com possibilidade de trabalho em mais locais da cidade. “A visão de futuro não é o ‘home office’ a qualquer custo”, diz Maceira. O presidente da JLL acrescenta que rompimentos de contratos resultam em pagamento de multa e, em alguns casos, de restituição de “cash allowance” (subsídio de proprietários a novos inquilinos).

Betancourt, da Colliers, considera que o volume de escritórios devolvido, no quarto trimestre, não será tão grande quanto no terceiro, pois “começa-se a notar alguma recuperação econômica”. “Quando houver a vacina e a atividade estiver um pouco mais normalizada, a absorção líquida deve voltar a ser positiva”, acrescenta o presidente da Colliers.

Na avaliação da presidente da Cushman, Celina Antunes, a retomada de 100% da ocupação dos escritórios depende da vacina, mas não há expectativa que áreas sejam devolvidas em função do “home office”. Segundo ela, a maioria das empresas tende a utilizar o modelo uma ou duas vezes por semana.

Conforme levantamento realizado, em julho e agosto, pela Cushman, com 158 executivos de empresas ocupantes de áreas de 250 m2 a 5 mil m2, 59% dos participantes não têm a intenção de diminuir o tamanho do escritório ou ainda não conseguem dizer se farão redução, enquanto 37% informaram que não haverá encolhimento no espaço alugado. “O número que fará ‘home office’ definitivo é irrisório”, afirma Celina.

A executiva da Cushman ressalta que 85% das empresas informaram já ter retomado o trabalho, parcialmente, nos escritórios, ou que pretendem voltar até o fim do ano. “Muitas estão adaptando o layout dos escritórios”, afirma. A pesquisa indicou também que a maioria das empresas não irá demitir funcionários. Parcela relevante dos entrevistados (44%) informou que espera reaver crescimento, até o fim deste ano, ou em 2021 (32%). A presidente da Cushman disse ainda que o fato de fundos imobiliários estarem atraindo “muitos investimentos” indica confiança no mercado.


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Chiara Quintão - São Paulo, 28/10/2020