Duas cimenteiras mudaram de donos entre setembro e esta semana, dando continuidade a um processo de entrada de novos investidores e de consolidação de ativos no setor. Em setembro, o fundo de hedge americano Farallon Capital assumiu o controle da Cimento Elizabeth, do Nordeste, em troca de créditos que tinha com a família Crispim, também dona da Cerâmica Elizabeth. Nesta semana, o grupo irlandês CRH vendeu suas cinco fábricas no Brasil para uma joint venture entre o grupo Buzzi Unacem, da Itália, e o de Ricardo Brennand, de Pernambuco.

A difícil situação do setor começou em 2015 com a crise econômica do país. O consumo de cimento no mercado nacional entrou em queda livre, perdendo 27% das vendas em quatro anos. Empresas como Apodi e Elizabeth, cujos controladores entraram no setor atraídas pelo boom de demanda de 2007 em diante, construíram fábricas novas e ficaram bem endividadas. A solução foi buscar alternativas de reestruturação financeira - para manter parte do capital ou saindo de vez do negócio.

Potenciais compradores, quando o Farallon colocar o ativo à venda, segundo fontes, são a Vicat, a Titan e a CSN Cimentos

Na crise, diversas empresas tiveram de fechar fábricas ou paralisar parcialmente unidades e até desligar fornos. O setor passou a operar com ociosidade próxima de 50%. Ao fim deste ano, a expectativa, com a retomada do consumo durante a pandemia, é alcançar uma ocupação de 60%.

Há hoje no país 24 fabricantes, liderados pelo grupo Votorantim e pela InterCement. Desse número, 14 são grupos com operações integradas - desde a mina de calcário até o forno. Dez são donas de unidades de moagem, ativos de menor porte com atuação em nichos de mercado regionalizado.

Na lista das empresas que enfrentaram dificuldades e buscaram socorro financeiro estão a Apodi, do grupo Dias Branco, do Ceará, que em 2016 praticamente passou o controle ao grupo grego Titan Cement Group . Em 2018, a própria Brennand Cimentos foi socorrida pela italiana Buzzi, que está presente em 12 países e faz 50 milhões de toneladas por ano. A italiana injetou R$ 350 milhões na empresa e gastou outro tanto na compra de ações de acionistas minoritários, como BNDESPar.

Logo a seguir, o grupo francês Vicat assumiu o controle da Cimento Planalto (Ciplan), do Distrito Federal, ficando com 65% do capital acionário. A cimenteira francesa desembolsou €290 milhões (o correspondente a R$ 1,29 bilhão, na época), na forma de um aumento de capital reservado. Boa parte do dinheiro foi alocada para amortização de dívidas da empresa. A família Atalla permaneceu no negócio com 35%.

A Elizabeth não deve ficar por muito tempo em poder do Farallon, que vai buscar um investidor estratégico, ou seja, já com atuação no setor, e sair desse negócio, segundo uma fonte próxima disse ao Valor. O fundo, que também investe em empresas em reestruturação financeira, é especializado em comprar ativos problemáticos. A gestora tinha crédito, conversível em ação da Ciplan, mas recebeu seus recursos com a aquisição da empresa pela Vicat.

A Cimento Elizabeth, inaugurada em meados de 2015, no começo da retração da demanda de cimento no país, tem uma fábrica a fazer 1,2 milhão de toneladas ao ano na Paraíba. Situada em Alhandra, é uma unidade industrial moderna, com alto grau de automatização e logisticamente bem localizada no mercado de cimento da região Nordeste.

No ano passado, o Grupo Elizabeth - do sul do país - faturou cerca de R$ 1,1 bilhão, dos quais R$ 750 milhões na divisão de cerâmica. A gestora assumiu o negócio, avaliado em cerca de R$ 900 milhões, e pretende reestruturá-lo, antes de vendê-lo.

Assim como na Ciplan, o Farallon tinha crédito de dívidas conversíveis no Grupo Elizabeth. Com o acerto, ficou com 100% do capital da companhia de cimento, se comprometendo a fazer injeção de capital no negócio. Procurada, a Farallon não comenta o assunto.

Potenciais grupos compradores, quando o Farallon colocar o ativo à venda, segundo fontes, são a Vicat, a Titan e a CSN Cimentos. Para a francesa seria a chance de fincar base no Nordeste e até atuar também no Norte. Vai depender do valor que a Farallon pedir e de como o consumo de cimento no país se mostrar a partir de 2021.

O grupo CRH deixou o país porque desde que assumiu os ativos brasileiros, em 2015, só vinha perdendo dinheiro. Esses ativos entraram juntos na compra global de cimenteiras da LafargeHolcim, colocados à venda por imposição dos órgãos antitruste para aprovar a fusão das duas empresas.

Para a Buzzi/Brennand, a aquisição desses ativos, por US$ 218 milhões (R$ 1,22 bilhão) vai reforçar a presença no Sudeste. Com fábricas na Paraíba e Sete Lagoas (MG), incorpora mais quatro unidades em Minas e uma em Catagalo (RJ), considerado o ativo mais interessante no pacote.

Fontes do mercado financeiro ouvidas pelo Valor não enxergam um grande movimento de consolidação transformacional no setor no curto prazo. No setor, entretanto, avalia-se que o processo deve ganhar força com a presença de mais grupos estrangeiros de cimento no país. Nesses quatro anos de crise, as empresas ficaram financeiramente muito machucadas, com margens no vermelho. A líder do setor, a Votorantim Cimentos tem restrição do Cade para fazer aquisições. O mercado também não vê movimento parecido envolvendo a InterCement.

Hoje, o grupo João Santos, financeiramente quebrado, tem só duas das 11 fábricas em operação. A Cimento Tupy também se encontra em situação difícil, assim como a Cimento Liz e a InterCement, da Mover Participações (grupo Camargo Corrêa). A IC fechou o ano passado com dívida líquida de €1,42 bilhão, após vender fábricas em Portugal e Cabo Verde. Em junho, ela alongou com bancos brasileiros boa parte de sua dívida e em agosto vendeu também a fábrica do Paraguai.


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Ivo Ribeiro e Mônica Scaramuzzo - São Paulo, 28/10/2020