Criar estrutura para tratamento do esgoto a ponto de torná-lo água potável é uma alternativa para situações de crise de abastecimento hídrico, como a vivida hoje em São Paulo. É o que defende o consultor e engenheiro sanitarista Eduardo Pacheco. "A potabilização do esgoto já é adotada em Singapura e na Namíbia e deveria ser estudada no Brasil como um mecanismo de segurança do sistema, a ser acionado em momentos de escassez assim como as termoelétricas são acionadas quando não é possível utilizar o potencial das hidrelétricas", diz.
Pacheco é um dos organizadores do fórum técnico internacional "Reúso Direto e Indireto de Efluentes para Potabilização", realizado nos dias 15 e 16 de outubro na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). Mesmo que as chuvas voltem às cabeceiras dos reservatórios e afastem a atual crise de abastecimento paulista, a escassez de água deve se agravar nos próximos anos no Estado.
Alceu Bittencourt, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária (Abes-SP), avalia que a macrometrópole formada pelos 180 municípios que circundam a capital paulista, uma região que responde por 21% do território paulista mas concentra 75% da população, demandará 283 m³ de água por segundo em 2035, caso se confirmem as previsões de uma população de 36,6 milhões de habitantes na região naquele ano. Segundo Bittencourt, será necessário ampliar até lá em mais de 50 m³ por segundo a capacidade atual de fornecimento de água e a melhor alternativa é o reúso dos efluentes.
Há duas formas de reúso do esgoto, a direta e a indireta. A direta representa encaminhar a água resultante do tratamento do esgoto para as Estações de Tratamento de Água (ETAs) que abastecem a população. Para isso é preciso criar uma estrutura complementar às atuais Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs), capaz de potabilizar a água resultante do processo.
A Grande São Paulo, segundo Pacheco, conta com cinco ETEs que realizam juntas o tratamento de 17 m³ por segundo de esgoto. "Poder aproveitar esse potencial representaria afastar o racionamento", diz Pacheco. Nas contas do consultor, São Paulo consome hoje 70 m³ de água por segundo e gera por volta de 55 m³ por segundo de esgoto. Mas o sistema do esgoto não resolveria a crise atual, uma vez que não há legislação no país para o uso direto de esgoto potabilizado e a construção de uma Estação de Potabilização de Esgoto (EPE) exige pelo menos um ano de obras.
O investimento numa EPE também não é baixo, Pacheco calcula em aproximadamente US$ 7 por m³ tratado por segundo. "É caro, mas é a metade do valor de uma estação de dessalinização da água do mar", diz. A água dessalinizada ainda precisaria ser transportada para a Grande São Paulo por um sistema de dutos e bombas capaz de levar a água serra do mar acima.
Pacheco diz que a qualidade da água potabilizada do esgoto é muito boa, melhor até mesmo do que a oferecida hoje pela Sabesp. "Em Singapura essa água é engarrafada e vendida", diz. A Nasa também adota a potabilização para fornecer água aos astronautas e a longevidade do sistema de potabilização da Namíbia é apresentada como uma demonstração da segurança do sistema.
A Namíbia, na África, é um país árido com 80% de seu território composto de deserto ou semi-deserto. A precipitação anual de chuva na capital, Windhoek, é de aproximadamente de 370 mm e o rio mais próximo, o Okavango, está a 700 km de distância. Desde 1968 a cidade adota um sistema de potabilização do esgoto doméstico que hoje é responsável pelo abastecimento de 30% de seus 230 mil habitantes.
O professor Pedro Mancuso da Faculdade de Saúde Pública da USP diz que existem várias tecnologias eficientes disponíveis para a potabilização do esgoto, com técnicas que usam carvão ativado, processos que usam oxidantes avançados, osmose inversa, microfiltração, ultrafiltração e nanofiltração. Sistemas, segundo ele, capazes de eliminar qualquer bactéria ou organismo vivo conhecido. Mesmo assim, Mancuso é contrário ao aproveitamento direto do esgoto potabilizado, ele defende o uso indireto. "Não é um problema técnico, é um problema de gestão", diz,
Para Mancuso é arriscado encaminhar diretamente para uma ETA o esgoto tratado. "Mesmo as melhores tecnologias estão sujeitas a falhas humanas, à falta de energia e defeitos nos equipamentos", diz. O professor também aponta outro problema. A presença cada vez maior no esgoto do que ele chama de "poluentes emergentes". Substâncias resultantes do uso de anticoncepcionais, remédios, filtros solares que poderiam chegar diretamente às ETAs sem a devida barreira, uma vez que as tecnologias de tratamento de esgoto foram desenvolvidas para combater contaminantes tradicionais.
Mancuso defende o reúso indireto do esgoto. Devidamente tratado, o efluente seria devolvido aos rios. "Por diluição, a natureza faria o tratamento final da água de reúso", defende. Rios que hoje são esgotos abertos atravessando áreas urbanas poderiam ser utilizados para a captação da água necessária para o abastecimento humano.
Fonte: Valor, por Domingos Zaparolli, 27/10/2014

