O desfecho da corrida presidencial, seja qual for, não deixaria economistas e investidores tão surpresos quanto uma possível alteração da taxa básica de juros no encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) na próxima semana (dias 28 e 29).

Qualquer outra decisão que não a permanência da Selic em 11% ao ano não apenas seria incongruente com os reiterados sinais emitidos pelo Banco Central (BC) em seus documentos oficiais como causaria estranheza dada a indefinição sobre a condução da política econômica em 2015 - seja em caso de reeleição de Dilma Rousseff (PT), seja com a vitória de Aécio Neves (PSDB).

Todos os 32 economistas ouvidos pelo Valor apostam em manutenção da taxa básica na semana que vem. Desse elenco de profissionais, 27 também veem Selic em 11% no fim deste ano, enquanto três projetam alta de 0,25 ponto percentual em dezembro, para 11,25% ao ano, em caso de reeleição; e dois trabalham com aperto monetário ainda neste ano seja quem for eleito.

Quando o horizonte se alarga, observa-se uma dispersão maior das projeções. Dos 32 economistas, 17 projetam alta da Selic em 2015 seja qual for o presidente; 9 trabalham com manutenção; 5 condicionam a alta ao resultado do pleito e 1 não tem estimativa.

O Itaú Unibanco trabalha com Selic a 11% na semana que vem, no fechamento de 2014 e também de 2015. Caio Megale, economista da instituição, não vê o resultado da eleição interferindo na decisão do colegiado, mas reconhece que pode interferir no comunicado. "Se mudar o comunicado é para indicar inflação mais pressionada e dar um viés de alta que o diretor Carlos Hamilton Araújo já deu na apresentação do Relatório de Inflação."

O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, alinha-se ao grupo que aposta em aperto monetário em 2015 e vê como provável uma alta de 1 ponto da Selic. "O quadro geral, a ser tratado por qualquer governo, é uma inflação com a mesma dinâmica, apesar do forte ciclo de alta da Selic e da inegável desaceleração da atividade", afirma Gonçalves.

Gonçalves ressalta que os preços administrados (energia elétrica, combustíveis e transportes) vão subir no ano que vem com qualquer presidente. No caso de reeleição, pode haver uma depreciação maior do real, o que pressionaria a inflação e exigiria uma alta da Selic em ao menos 1 ponto percentual. Se a oposição vencer, a alta do dólar tende a ser menor e vai haver mais "tolerância" com a política fiscal, segundo Gonçalves. "Neste caso, a alta de 1 ponto deve balizar a busca de 4,5% ou quase em prazo mais curto, em meados de 2016", diz.

Para Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos, o aperto terá que ser mais forte. Ela projeta Selic em 12,5% no fim do ano que vem, já considerando uma política fiscal mais apertada, com um superávit primário anual médio de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) no biênio 2015/2016, variação de 8% nos preços administrados no ano que vem e taxa de câmbio perto de R$ 2,50. " Qualquer mudança nessas hipóteses altera o valor final da Selic", afirma Solange, ressaltando que é preciso um aperto de "no mínimo" 1 ponto percentual caso o BC busque pôr a inflação mais perto do centro da meta (4,5%) no fim de 2016.

O economista-chefe da Arsa Investimentos, Sérgio Goldenstein, alinha-se aos que veem a possibilidade de uma redução da Selic em 2015. Caso seja adotada uma "política fiscal contracionista", o Banco Central começa a cortar a Selic no segundo semestre do ano que vem e a reduz para 10% ao ano. "A desaceleração da absorção doméstica, o juro real acima do neutro, a perspectiva de boa safra agrícola e a trajetória comportada dos preços das commodities gerarão efeitos desinflacionários", afirma Goldenstein.

O espaço para um relaxamento monetário pode ser eliminado, diz o economista, se o governo não for "bem-sucedido na restauração da credibilidade e a taxa de câmbio depreciar de forma expressiva". Isso levaria o BC a deixar a Selic congelada em 11%.


Fonte: Valor, por Antonio Perez, Lucinda Pinto e Angela Bittencourt, 24/10/2014