Um dia depois de ser criticada pelo candidato à Presidência Aécio Neves (PSDB), a Agência Nacional de Águas (ANA) foi a público, criticou a condução da crise hídrica em São Paulo por parte do governo estadual e da Sabesp, traçou um cenário pessimista para o abastecimento em 2015 e afirmou que há uma terceira cota que pode ser retirada do volume morto do Sistema Cantareira, mas que ela será mais difícil de ser utilizada e que terá que vir do lodo.

De acordo com o presidente da ANA, Vicente Andreu, a autarquia trabalha com cenário diferente da Sabesp, que não vem respondendo aos pedidos da agência de informação sobre a situação atual.

Andreu falou em debate sobre a crise hídrica no Estado, realizado ontem na Assembleia Legislativa de São Paulo, na capital paulista. O volume morto, contou ele, possui cerca de 500 bilhões de litros. Com a segunda cota a ser liberada, de 106 bilhões, mais a utilização da primeira, de 186 bilhões, restam "cerca de 200 bilhões de litros". Entretanto, "como a reserva fica no fundo, se a crise se acentuar, não haverá outra alternativa a não ser tirar essa água, que fica no lodo", segundo o presidente da ANA.

Qualquer obra de aumento da capacidade do atual sistema de abastecimento de São Paulo leva no mínimo dois anos para ser concluída. "Então, a solução é ou esperar por uma chuva boa ou se retirar o volume morto", afirmou.

A autarquia trabalha com um cenário no qual a partir de um volume de chuva equivalente a 70% da média histórica, em abril do ano que vem - início do período de seca - o sistema Cantareira estaria com -5% de nível de reservatório. Ou seja, esse percentual negativo leva em conta uma recuperação parcial do volume morto.

Assim, as chuvas seriam suficientes para preencher de volta a maior parte do volume morto, mas oficialmente o volume normal do sistema ainda estaria zerado. Em abril de 2014, o sistema estava com 10% da capacidade (excluindo o volume morto).

Em outro cenário, com chuva na média histórica, o Cantareira entraria em abril com 37% da capacidade. Entretanto, diz Andreu, há dois problemas. O primeiro é que quase nunca chove dentro da média, pois "geralmente ocorrem chuvas a menos ou a mais".

Nos últimos anos, a chuva ficou abaixo do esperado e a previsão é que os índices permaneçam abaixo da média. "Choveu até agora quatro milímetros em outubro. No cenário da Sabesp, choveria 15 mm. A média não é um critério seguro em um contexto de crise. A previsão da Sabesp nós descartamos. Não dá para operar o reservatório nesse nível de insegurança. Se não chover, que é o que está ocorrendo, corre-se um grande risco de haver um colapso nunca antes assistido em São Paulo", disse.

Andreu também reclamou que as decisões sobre como enfrentar a crise hídrica no Estado de São Paulo são tomadas pelo DAEE, órgão que regula água e energia no Estado, Sabesp, empresa estatal de saneamento, e Secretaria estadual de Recursos Hídricos. "Estamos fora, pois nossas sugestões não são nem levadas em conta, muito menos colocadas em prática."

Para enfrentar a crise, a agência ofereceu um plano, ainda no primeiro semestre deste ano, que descartava a utilização da média histórica de chuva esperada para o período como fonte de previsão.

"Achamos que o melhor seria olhar o quanto choveu no mês anterior. Se estiver dentro do esperado, mantém-se a vazão atual. Se vier abaixo, reduz-se a vazão ao nível da redução da chuva em relação ao esperado. Se não for feito isso, a quantidade de água que existe hoje não dura até abril", disse.

As críticas de Aécio, que classificou a autarquia como um órgão aparelhado pelo governo federal, repercutiram mal dentro da ANA. Andreu se disse "magoado" e reclamou da postura do governo paulista, nas mãos do PSDB.

"Nós procuramos oferecer alternativas técnicas para superar essa situação desde o começo do ano. Parece que eles querem adesão e não sugestão. Qualquer opinião diferente é encarada como uma oposição", afirmou.


Fonte: Valor, por Rodrigo Pedroso , 22/10/2014