O forte aquecimento da demanda por materiais de construção sentido desde junho levou o grupo Saint-Gobain a traçar nova projeção para o faturamento, neste ano, das operações do Brasil e a decidir antecipar investimentos na construção de nova fábrica de telhas de fibrocimento e de duas novas unidades da Quartzolit. Agora, a empresa espera crescimento de 7% a 8% no faturamento, ante a projeção anterior de queda de 10% a 15%. Ainda não está definido se o grupo terá também nova fábrica ou nova linha de gesso.

No início do ano, o grupo francês tinha expectativa de aumento de quase 11% em seu faturamento, mas a desaceleração da economia e as restrições decorrentes da pandemia de covid-19 resultaram em forte queda da demanda. Foi quando a Saint-Gobain avaliou que teria retração em 2020, ante as vendas de R$ 8,1 bilhões de 2019. Com a liberação das atividades do varejo de materiais de construção e a concessão do auxílio-emergencial, porém, a situação se inverteu.

“Tivemos quase metade das nossas fábricas paradas ou com a produção muito baixa e depois passamos a operar com quase 100% da capacidade”, afirma o presidente da Saint-Gobain para Brasil, Argentina e Chile, Thierry Fournier.

De janeiro a setembro, o faturamento da Saint-Gobain aumentou 5% na comparação anual. Isoladamente, em setembro, houve crescimento de 38%. Na avaliação de Fournier, esse cenário de crescimento acelerado deve se manter até o início de 2021, retornando aos níveis de normalidade com o fim do auxílio-emergencial e do impacto desse benefício na compra de materiais para reforma - a construção civil é o principal setor de atuação do grupo.

Por outro lado, os juros no mais baixo patamar da história continuam a estimular a oferta de crédito imobiliário, os lançamentos de projetos residenciais e a demanda por moradias. À medida que os empreendimentos começam a ser erguidos, cresce o consumo de materiais. “Já está havendo encomendas pelas construtoras”, afirma Fournier. O que não está claro ainda, segundo o executivo, é qual será a demanda por materias para edifícios de escritórios comerciais. “Nós mesmos estamos nos questionando se vamos continuar no prédio atual”, diz o presidente.

No setor de construção, a Saint-Gobain atua por meio da Brasilit (telhas de fibrocimento e soluções de construção à seco), Quartzolit (rejuntamentos e argamassas e impermeabilizantes), Placo do Brasil (drywall), Pam (tubos, conexões e válvulas), Isover (soluções de isolação termoacústica e em lã de vidro) e Saint-Gobain Glass, Cebrace e Sekurit (vidro plano). O grupo participa do varejo de materiais de construção pela Telhanorte e pela Tumelero (na região Sul).

Desde 2014, com a chegada de Fournier para comandar as operações do Brasil, a Saint-Gobain vinha apostando mais em flexibilidade e automação das linhas de produção do que em construção de novas unidades. Mas o aquecimento da demanda por materiais de construção levou o grupo a antecipar o cronograma de novas fábricas que faziam parte de sua estratégia futura.

Sem informar prazos, capacidades e aportes previstos, Fournier conta que o grupo terá nova fábrica de telhas de fibrocimento, que será construída em Abadiânia (GO). A Saint-Gobain vai erguer também novas unidades da Quartzolit - uma na região Sudeste e outra no Norte.

Em abril, a Saint-Gobain chegou a estimar que cortaria pela metade os investimentos de R$ 400 milhões em 2020. Mas, de acordo com o executivo, foi possível reduzir os aportes em apenas 10% devido à geração de caixa melhor do que a esperada no início da pandemia. Os recursos estão sendo destinados a aumentos de capacidade e a manutenção. “Investimos com foco no longo prazo e atuamos taticamente”, afirma o presidente.

Na produção de PVC, tubos de silicone e poliuretano para o setor médico e na fabricação de refratários para a indústria pesada, houve manutenção do ritmo das atividades, sem as oscilações dos segmentos relacionados à construção.

Já no segmento de vidros para a indústria automotiva, a produção da Saint-Gobain chegou a cair 97%, em abril, como consequência da freada das atividades pelas montadoras. A redução acumulada na produção de vidro automotivo é de 6%. Recentemente, a Associação Nacional dos Veículos Automotores (Anfavea) revisou a estimativa de produção para 2020 de retração de 45% para queda de 35%.

Na definição de suas estratégias de curto prazo, a Saint-Gobain considera que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil terá queda de 6,5%, neste ano, e crescimento de 4% em 2021.


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Chiara Quintão - de São Paulo, 20/10/2020