O governo espera neste ano um recorde de criação de Microempreendedores Individuais (MEIs). Desde o início de janeiro até o fim do mês passado, houve 1,470 milhão de novos registros, conforme dados do Portal do Empreendedor.

“É assustador”, comentou o presidente do Sebrae, Carlos Melles. No mesmo período do ano passado, o número de novos MEIs registrados ficou em 1,291 milhão.

O estoque chega a 10,9 milhões de MEIs e 7,5 milhões de pequenas e micro empresas. Com isso, uma parcela expressiva da população brasileira estará envolvida com um novo negócio ou uma empresa com até 3,5 anos de operação, informa o Sebrae.

Em grande parte, são pessoas que perderam o emprego formal e se tornaram MEIs por necessidade, reconheceu Melles.” É uma válvula de escape”, afirmou o presidente da entidade

São as chamadas “empresas empregariais”, para as quais não há dados. Com pagamentos de cerca de R$ 60 ao mês, essas pessoas conseguem manter acesso a benefícios como auxílio-doença, aposentadoria por idade e salário-maternidade. Um MEI também consegue emitir notas fiscais para seus serviços, o que facilita sua contratação por outras empresas.

“Estou cada vez mais convencido que o trabalho do futuro é o MEI”, afirmou o presidente do Sebrae. “Vai chegar uma hora em que o trabalho não será contratado mais por mês, nem por dia, mas por hora.” É uma evolução que veio para ficar, acredita.

A maior parte desse empreendedorismo forçado vai para o setor de serviços, informa o Sebrae. O investimento necessário para iniciar as atividades é mais baixo. Em agosto, o setor de serviços gerou 45,4 mil vagas com carteira assinada, o primeiro mês de saldo positivo para esse segmento desde março - o primeiro caso de covid-19 foi confirmado em fevereiro.

Como lidar com esse contingente de pessoas que foram forçadas a empreender é uma preocupação. O Sebrae tem procurado ajudar, por exemplo, tornando gratuitos vários cursos de formação de novos empreendedores. O foco tem sido ensinar três coisas: como ser digital, como administrar as finanças e como fazer a gestão do negócio.

O uso da tecnologia digital tem sido uma estratégia importante para os novos empresários. De acordo com Melles, 83% das micro e pequenas empresas utilizam o WhatsApp como ferramenta de vendas. O Sebrae tem buscado também fortalecer parcerias com marketplaces.

Já o Ministério da Economia acredita que, para esses empreendedores, o principal instrumento de apoio é o microcrédito. Um exemplo é a destinação de R$ 10 bilhões para empréstimos via maquininhas de cartão de crédito.

O microempreendedor que não tem patrimônio para dar em garantia para financiamentos bancários usa as receitas futuras de seu negócio para tomar esses empréstimos.

As operadoras de cartão têm o histórico e conseguem avaliar a capacidade de geração de receitas daquela empresa. O pagamento poderá ser feito mediante desconto de uma pequena parcela de cada venda realizada, comentou Melles.

O programa de concessão de microcrédito, porém, é mais amplo. A digitalização da população de baixa renda provocada pelo pagamento do auxílio emergencial criou também um canal amplo para a concessão de pequenos empréstimos. A Caixa discute com o Ministério da Economia formas para entrar com força nesse mercado.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Lu Aiko Otta - de Brasília, 19/10/2020