As reduções mais recentes da taxa de juros preocupam e "mais um corte neste momento requer uma explicação do Banco Central", diz o ex-presidente do BC Arminio Fraga (1999-2002).
Em entrevista na última terça-feira (9), um dia antes da reunião que baixou a Selic pela décima vez consecutiva -para 7,25%-, Fraga considerou o movimento arriscado num cenário de inflação persistentemente acima da meta ("que é 4,5%, não é 5,2%").
E desnecessário quando a economia vive o pleno emprego.
"A melhor coisa que o Banco Central pode fazer pelo crescimento é preservar uma inflação baixa e estável", afirma.
Considerado o pai do regime de metas de inflação, o economista assumiu o BC em meio à crise da desvalorização do real e do fim do câmbio fixo. Seu primeiro ato no BC foi elevar para 45% a Selic -hoje em 7,25%.
Foi descrito pela imprensa internacional como "o nerd que salvou o Brasil da falência".
À frente da gestora de recursos que fundou ao deixar o governo, a Gávea Investimentos, administra US$ 7 bilhões com prazos alongados.
Um de seus principais interesses no momento também é de longo prazo: educação. "É preciso saber que os frutos principais serão colhidos não agora, mas daqui a dez anos."
Leia abaixo trechos da entrevista concedida em seu escritório, a duas quadras da praia do Leblon, na zona sul carioca:
O esforço do governo foi baseado em excesso no consumo em detrimento do investimento?
O consumo era um anseio natural da população. Explorar o crédito ao consumidor é totalmente natural, bom, dentro de certos limites e isso vai continuar a ser um mecanismo importante.
Mas tem que vir acompanhado do lado da oferta, que é o que estamos discutindo.
Só o consumo não resolve, tem que ter investimento também.
Estamos com essa situação meio esdrúxula de desemprego muito baixo, que é, claro, motivo de festa, e crescimento baixo.
Precisa crescer com produtividade...
Sim, e para ter produtividade tem que investir e educar também.
Outro problema que temos hoje, há uma crise no mercado de trabalho, não de falta de emprego, mas de gente. Em muitos setores. Falta mão de obra qualificada. Capital e trabalho são complementares. Sem mão de obra qualificada para se engajar na produção com mais capital, não se atinge o potencial.
Lembra que como pano bem de fundo nosso PIB per capita é 20% do americano. Em tese, temos espaço enorme para crescer a taxas que deveriam ser relativamente elevadas por muitos anos.
É um processo de capitalização da economia e de educação do povo.
Não falta poupança?
Falta. Até vi que o Ipea vai estudar o tema, acho que tem que estudar, sim.
Normalmente a poupança não vem na frente, e, quando se vive um ciclo de expansão do crédito das famílias, elas poupam menos.
Mas chega um ponto em que o endividamento das famílias atinge um nível de cruzeiro e elas passam a poupar um pouco mais.
Não chegamos ainda a essa velocidade de cruzeiro? Qual seria um índice de endividamento de cruzeiro?
Nessa desaceleração que estamos vivendo --e eu suspeito que está chegando ao fim--, um elemento foi de fato que o consumidor foi com muita sede ao pote e tivemos uma ou duas safras de empréstimos não tão boas.
Mas é pouco provável que tenhamos chegado a essa velocidade de cruzeiro, porque, apesar de o crédito ter crescido, a relação crédito/renda ainda não é tão alta. Como os juros continuam ainda altos, embora tenham caído, e os prazos também ainda não tenham se alongado muito, em parte porque o financiamento imobiliário ainda é pequeno, vamos ter espaço ainda para
mais crédito.
É possível que o Brasil passe por um período de vários anos importando poupança.
Se o investimento começar a crescer, não deve supreender a ninguém que o déficit em conta corrente aumente um pouco, pois é onde esse desequilíbrio se manifesta.
O senhor falou eu acredito que talvez esteja chegando ao fim a desaceleração. Ainda há dúvidas sobre isso?
Não. Pode tirar uns dois qualificativos desses. Não tenho muitas dúvidas, não. Minha expectativa é que a economia comece a crescer 3%, 4% ao ano. Pode até superar por um período, mas é por aí.
Para crescer mais que isso, terá que investir mais.
Além da dificuldade de execução, o governo precisaria cortar consumo para aumentar o investimento?
Deveria. É um tema antigo. Nosso governo transfere muito. Um percentual altíssimo do gasto ocorre pelas transferências, que tem tido um impacto social muito importante. Onde falta esforço e estudo é no resto, no custo da máquina pública. Quanto custa e o que entrega? Esses dois pontos teriam que ser discutidos.
O que falamos sobre investimento se aplica a muita coisa: como está funcionando o sistema de saúde? A educação? Há espaço pra cortar? Como?
O fato é que a relação gasto do governo/PIB vem crescendo muito no Brasil e isso preocupa.
As informações no Brasil já são de qualidade? Para quem tem que trabalhar avaliando risco, como o senhor, quanto confiáveis elas são num grau de zero a dez?
Em macro, são totalmente satisfatórias. Em micro varia muito de setor para setor. Vai-se entrando num mundo da empresa, da regulação, e vai de caso a caso.
O que faz falta é tentar entender se a política industrial vai funcionar ou não, conhecer um pouco melhor o trabalho do próprio BNDES, entender o porquê das políticas agora de proteção tarifária, qual a formulação, qual a lógica. São termos importantes.
O sr. acha que o governo se desviou do chamado tripé da política econômica? Abandonou a meta de inflação?
O tripé em geral sobrevive, mas está um pouco ameaçado em alguns aspectos.
Começando pelas metas para a inflação. A inflação subiu bastante, o banco central reagiu, veio a crise européia, a inflação começou a cair e vem se beneficiando de medidas e eventos não recorrentes, como a contenção dos preços dos combustíveis, que, entre parênteses, eu acho inclusive uma pena do ponto de vista ambiental. A decisão mais recente sobre as tarifas de energia, que devem cair no ano que vem, também não é um alívio recorrente. São pequenos remendos.
Mesmo assim, com isso tudo, as projeções para o ano que vem continuam acima de 5%.
Existe um questionamento do que o banco central pretende fazer realmente para levar a inflação para a meta de 4,5%.
O segundo é a respeito da taxa de câmbio. O Brasil nunca praticou uma flutuação totalmente livre, mas nunca teve meta de câmbio. A introdução de uma aparente meta, friso o aparente, introduz um elemento de confusão em potencial. Verdade que, no curto prazo, o governo pode tentar usar controle de câmbio, impostos e outros controles, mas o efeito disso não dura muito.
É um clássico, o banco central não pode ter meta de câmbio e de inflação ao mesmo tempo. Quando você segura o câmbio, perde uma variável de ajuste. Por exemplo, se há um aumento grande no preço das commodities, isso tem um impacto no câmbio [exportadores recebem muito dólares e o excesso da moeda estrangeira derruba sua cotação] que reduz o efeito na inflação.
Se você o segura o câmbio, vai ter que resolver de outra maneira. Qual maneira? Aumentar os juros. Mas isso atrai mais capital. É difícil pilotar o sistema com muitas metas.
Essa é a segunda.
A terceira é a parte fiscal, que, nesses dois anos de crescimento mais baixo, possivelmente vai entregar um superavit primário um pouco menor, mas é até bom ter um sistema em que há alguma flexibilidade para lidar com os ciclos econômicos.
Claro que, quando as coisas vão bem, se deveria ter também um primário maior, não pode ser só para um lado. Mas sempre tive simpatia por essa ideia.
O sistema está vivo ainda.
É muito difícil para um governo mexer na meta. É uma variável hoje social. O povo entende que, se a inflação começar a subir ele perde.
O governo está experimentando com algumas coisas, nesse mundo onde o pêndulo veio mais para o lado da intervenção. É justificável.
Há quem venha defendendo que o papel do Banco Central não é só defender a moeda, mas olhar o crescimento.
Acredito piamente que a melhor coisa que o Banco Central pode fazer pelo crescimento é preservar uma taxa de inflação baixa e estável. E suavizar um pouco as flutuações do PIB. E tomar cuidado com a estabilidade financeira.
São as três coisas que o bc pode fazer.
Cuidar de ser um agente de fomento traz sempre o risco de errar a mão na demanda quando os problemas estão na oferta.
É o caso do Brasil hoje? É cedo para julgar.
O BC é acusado de estar se arriscando um pouco nessa área, mas eu não seria muito taxativo.
Acredito, ao contrário de muitos colegas economistas, que, quando for necessário, o banco central vai aumentar os juros.
*As operações todas estão apontando para baixo. [a entrevista foi concedida na véspera do mais recente corte de juros que, em 10 de outubro, baixou a Selic de 7,5% para 7,25%]*
Essas últimas reduções estão preocupando. Os economistas que analisam bem os dados, que olham para as projeções de inflação, para as expectativas de inflação, questionam muito.
Hoje o mercado precifica um corte de mais 0,25. Não ficou muito claro o porquê do último corte. Mais um neste momento requer uma certa explicação do Banco Central.
Qual seria o motivo?
Por exemplo, que estão vendo uma economia muito mais fraca, ou algo lá fora que não estamos vendo, mas alguma coisa que nos leve a crer que a inflação vai convergir para a meta, que é 4,5%. A meta não é 5,2%. É 4,5%.
Cortar 0,25 agora tem algum efeito na anemia da economia?
Mas a economia está a pleno emprego. Então o problema é outro. Estamos combatendo o problema errado.
Qual seria o alvo?
O Banco Central faz um trabalho minucioso. Se de fato cortarem, como o mercado acredita, certamente vão explicar. No último corte as explicações não foram muito claras.
O mercado bancário no Brasil é centralizado?
Não mais que a maioria dos outros. Ter cinco, seis grandes bancos não é um grau exagerado de concentração.
Qual é a saída para manter rentabilidade com juros menores?
Para eles vai ser um espetáculo, ao contrário do que as pessoas pensam. Vão ganhar um pouco menos no float, mas os negócios vão crescer, vão surgir novos produtos, vai ser sensacional para os bancos. Os prazos vão se alongar, os temas e as demandas das empresas vão crescer e ficar cada dia mais sofisticados. Vai ser um paraíso para os bancos. Vão crescer no volume e no prazo. E na complexidade. Aqui espero que não cresçam demais como lá fora, mas vão crescer também.
*Sua carreira teve momentos altos tanto no setor privado, com o megainvestidor George Soros, como no público, como presidente do BC. Como compara as dificuldades e recompensas
das duas vidas?*
O trabalho no setor privado é mais discreto, mais simples, mais fácil de obter resultados e é onde passei a maior parte da vida. O trabalho no governo, pelo menos o meu, me expunha muito. As implicações das decisões que se tomavam eram objeto de discussão nacional, exposição frequente nos jornais, nas televisões. Uma pressão muito maior e uma satisfação, quando as coisas andam, como eu tive a sorte de ver andarem, imensa. Mas com sacrifícios pessoais também altamente relevantes. Não falo nem da renda. No meu caso, quando fui para o BC na segunda vez, já tinha um bom pé de meia.
O sr. voltaria para o governo?
Não pretendo.
Mas, como já passei por lá duas vezes e ainda sou relativamente novo, não descartaria, por uma questão de princípio pessoal. Mas, sabendo do sacrifício, das dificuldades... iria numa situação que me motivasse muito. Como nas duas vezes em que fui [a primeira foi durante o governo Collor, na segunda equipe do BC, que se sucedeu à que implantou o Plano Collor].
O sr. revisaria alguma decisão que tomou enquanto presidente do BC?
Não. Tomei tantas decisões, certamente algumas teria feito melhor. Mas, de modo geral, não. Foi um período muito reativo, porque na chegada teve crise, depois teve a crise da Argentina, da Bolsa americana, depois a nossa crise de confiança, no final. Fiquei muito tempo fazendo a coisa micro, que adoro, mas tive que gastar muito tempo, com meus colegas, na coisa macro.
Não dá uma vontade de poder ser presidente do BC agora, só para poder determinar taxas de juros de 7%, em vez de 45%, como teve que fazer na primeira reunião do Copom de que participou, em 1999? Já lhe ocorreu alguma vez esse pensamento?
No início de 1999 as expectativas de inflação eram de 20% a 50% ao ano e as de crescimento, de menos 4%. Entregamos 9% de inflação e mais 1% de crescimento. Não tenho queixas; plantamos uma boa semente.
Ser economista era sonho de criança?
Não! Eu ia ser médico. Minha família, pai, avô, meus tios, só tinha médico na família. Todos médicos, professores da UFRJ. Até hoje eu me pergunto, como teria sido a minha vida, eu amo a medicina. Mas achava que não tinha vocação, e fui procurar outro caminho. Acabei esbarrando na economia por acaso, por eliminação. Não queria ser engenheiro, contruir ponte, prédio, navio, sei lá o quê. Não queria ser advogado. Gostava de matemática, gosto dos assuntos econômicos em geral, mas não necessariamente para estudar economia no nível que acabei estudando. Mas no meio do curso me interessei mais, tive ótimos professores na PUC-RJ e, através deles, fui para o doutorado nos EUA [em Princeton, uma das melhores universidades do mundo]. Foi por acaso.
E hoje que áreas o interessam mais?
As mesmas áreas que sempre me interessaram. Macro, economia internacional, finanças. Hoje tenho lido bastante sobre educação.
Educação é uma área um pouco frustrante para quem busca resultado rápido. Seu "produto", que são as crianças educadas, leva vários anos para chegar à outra ponta. É preciso saber que os frutos principais serão colhidos não agora, mas daqui a dez anos.
Fonte: Folha de São Paulo, por Ana Estela de Sousa Pinto, 15/10/2012

