Com dificuldades de apoio na Câmara dos Deputados, o governo cedeu ontem à pressão de líderes aliados para ampliar o escopo da Medida Provisória (MP) 678/15, que permite o uso do Regime Diferenciado de Contratações (RDC) para construção de presídios e obras de segurança pública, e ajudou a aprovar quatro "jabutis" impostos pelo líder do PTB, Jovair Arantes (GO).
O petebista, relator da MP na comissão mista, fechou acordo com o governo para manter a ampliação do RDC para outras finalidades, a autorização para terceirizar serviços de estabelecimentos prisionais, a renegociação de dívidas do Proálcool, a permissão para que coligadas usem créditos tributários do Programa de Inclusão Digital, as mudanças em regras de cartórios e a prorrogação do prazo para as cidades acabarem com os lixões.
O governo, que na noite anterior se aliou ao PSDB na tentativa de aprovar o texto inicial da MP, com apenas dois artigos para permitir o uso do RDC em obras de segurança pública, voltou atrás após protestos do líder do PTB em plenário. "Não vou concordar em ser desmoralizado por um requerimento que tira a autoria do relator nesta Casa. É um desrespeito", reclamou.
Em reunião com o líder do governo, José Guimarães (PTCE), e o ministro Ricardo Berzoini, da SecretariaGeral da Presidência, Jovair afirmou que retiraria o apoio se ao menos parte do relatório não fosse mantido. Ele aceitou excluir apenas três emendas que davam benefícios para empresas de turismo, cancelavam licitação da Caixa Econômica Federal para concessão de lotéricas e tornavam obrigatório que as empresas protestassem em cartório dívidas não pagas para poder deduzilas do lucro líquido.
A oposição protestou contra a mudança de posição do governo, que aceitou votar o relatório, aprovado por 185 votos a 167 (o quórum estava baixo porque muitos deputados já tinham viajado). Guimarães afirmou que a versão aprovada foi fruto de negociação. "Pode dizer que é matéria estranha, é verdade, mas estamos ajudando os municípios, são causas que avaliamos como justas", disse. Para o deputado Daniel Coelho (PSDBPE), a votação foi uma "falta de desrespeito com o país".
O deputado Miro Teixeira (RedeRJ) disse que a "impressão que fica é que o governo fez um pacto com o demônio ". Entre as mudanças aprovadas está o uso do RDC (que inverte as fases da licitação e permite, em alguns casos, até omitir o valor da concorrência) para obras e serviços de mobilidade urbana ou infraestrutura logística metrô, estradas e portos, por exemplo e de contratos de pesquisa, ciência e tecnologia.
O regime também poderá ser usado para contratos de locação em que o poder público poderá contratar empresa para construir ou reformar um imóvel nos termos definidos pelo governo, que depois alugará o espaço por até 1% do valor do prédio. A contratação seguirá os critérios de dispensa de licitação aplicáveis as locações comuns.
Segundo Jovair, a mudança se espelha nos "grandes países do mundo". "O Estado diz: ′quero um imóvel assim e assado′ e aí a iniciativa privada constrói o imóvel e o aluga para o Estado", diz. A regra valeria para qualquer finalidade, inclusive para o novo prédio que a Câmara deseja construir. O texto também ampliou até agosto de 2018 o prazo para que os municípios encontrem alternativas para os lixões a céu aberto. A maioria não cumpriu o prazo, que esgotou em 2014, e os prefeitos estão sendo acionados pelo descumprimento da norma.
O projeto permite a terceirização de serviços de unidades prisionais e da execução de trabalhos pelos detentos. Fica proibido delegar funções que exijam poder de polícia. O Banco do Brasil fica autorizado a renegociar as dívidas do Proálcool (de substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis) por 15 anos, com três de carência e taxa de juros de 3% ao ano.
Embora tenha concordado em apoiar este artigo, o governo não se comprometeu a sancionálo. Outra alteração é em normas cartoriais para tornar obrigatório que as notificações por protesto de dívidas sejam feitas de acordo com a territorialidade e que o cidadão seja otificado em casa.
Fonte: Valor - Política, por Raphael Di Cunto e Fabio Murakawa , 09/10/2015

