O orçamento do consumidor brasileiro está mais apertado, mas o esforço para poupar entre aqueles que contam com alguma folga ficou maior neste terceiro trimestre. É o que mostra pesquisa feita pela Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomercio RJ) em parceria com a Ipsos em todo o país. De acordo com o levantamento, o total de famílias com sobra na renda após a quitação de todas as despesas do mês caiu de 32,6% em julho de 2013 para 27,7% em igual mês deste ano.

Entre esse grupo, 62% dos consultados afirmaram que poupar seria o principal destino do dinheiro excedente, maior nível para o mês de julho desde o começo da série histórica da pesquisa, em 2007. O dado reforça pesquisa anterior feita pelas duas entidades, que aponta crescimento de 3,1 pontos percentuais na parcela de famílias brasileiras que possuem algum dinheiro guardado: de 16,2% em julho de 2013 para 19,3% no mesmo período de 2014. Este percentual também é o recorde de alta da sondagem, que teve início em 2006.

Para Christian Travassos, gerente de economia da Fecomercio do Rio, os números refletem uma adaptação do consumidor brasileiro à conjuntura mais adversa, com aumento da inflação, estagnação da atividade econômica e perda de fôlego do mercado de trabalho. "Tanto a pesquisa sobre o perfil econômico do consumidor como a de poupança apontam para uma cautela, que já é medida nos indicadores econômicos", diz Travassos.

Na avaliação do economista, a menor folga detectada no orçamento das famílias não está relacionada a um patamar mais elevado de endividamento, mas sim a um aumento na fatia destinada aos gastos correntes, na esteira da inflação mais pressionada, que tem reduzido continuamente o poder de compra.

Segundo o levantamento a respeito do perfil econômico do consumidor, a quantidade de entrevistados que estava pagando algum tipo de parcelamento, que era de 47,9% em julho de 2013, caiu para 39,5% neste ano, menor percentual para um mês desde julho desde 2009. Nesse quesito, a fatia daqueles que possuem financiamento de veículo foi a que mais recuou em um ano, de 14,6% em julho de 2013 para 10,4% em igual mês de 2014.

Apenas 14,5% dos consultados pela Fecomercio pretendiam comprar bens duráveis nos próximos três meses, 1,2 ponto a menos do que o registrado em igual mês de 2013. "Os juros ascendentes e a retirada de incentivos fiscais têm efeito muito direto sobre a tomada de decisão do consumidor", diz Travassos. Segundo ele, o volume de vendas no varejo restrito (que não inclui automóveis e material de construção) deve crescer entre 4% e 5% em 2014 e também no próximo ano. Em 2013, esse índice cresceu 4,3%.


Fonte: Valor, por Arícia Martins, 06/10/2014