A queda geral dos indicadores de confiança referentes ao último mês do terceiro trimestre chancela de certa forma a expectativa de uma retomada fraca da economia após um semestre de queda e, segundo especialistas, coloca nas mãos do próximo governo - seja ele qual for - a responsabilidade de definir com urgência os ajustes econômicos a serem feitos, de forma a arrefecer as incertezas. Entre economistas, a expectativa é de leve reação da atividade nos últimos meses do ano, mas há quem espere queda do PIB no último trimestre.
A definição de como será o ajuste não deve gerar um surto forte de confiança, mas será suficiente para que alguns projetos comecem a ser desengavetados, o que pode ser visto nas indicações dadas pelos empresários sobre o ambiente de negócios em seis meses, diz Aloisio Campelo, superintendente-adjunto para ciclos econômicos do Ibre-FGV. Para ele, os índices de confiança do terceiro trimestre apontam para uma economia ainda fraca, com uma leve melhora no início do período puxada pelo aumento dos dias úteis em comparação a junho, mês de Copa do Mundo. "A piora da percepção sobre a demanda continua um obstáculo à melhora dos negócios."
Rafael Bacciotti, da Tendências, também relaciona uma melhora do humor ao ambiente político. "No período pós-eleitoral pode haver uma dissipação de incertezas, mas, para isso, precisa haver definição mais clara da equipe econômica em mostrar algum direcionamento", diz, ao prever duas altas de 0,4% para o PIB dos últimos trimestres e avanço de 0,3% em 2014.
Em setembro, o índice de confiança da indústria recuou 2,8% ante agosto, segundo a FGV. Após a nona queda consecutiva, o indicador atingiu o menor patamar desde março de 2009, auge da crise financeira internacional. Também se manteve bem abaixo da média dos últimos cinco anos, de 104,5 pontos, ainda que a leitura final tenha sido um pouco melhor do que a prévia - que apontava queda de 3,2% no mês. Para Bacciotti, o setor deve continuar sem fôlego para retomar a produção, reflexo do acúmulo de estoques. Ele prevê, porém, ligeira recuperação do setor automotivo no terceiro trimestre, com alta de cerca de 1% da produção industrial do período.
Além da indústria, a confiança do comércio e da construção civil também teve desempenho ruim em setembro, diante de um quadro que já não ia bem. No caso do comércio, a baixa foi de 8,7% no terceiro trimestre em relação a igual período de 2013. Na mesma base de comparação, a queda havia sido de 6,3% em julho e de 7,3% em agosto. Na construção, a baixa chegou a 12,3% entre julho e setembro em igual período de comparação - o pior resultado da série. Em serviços, cujos dados de setembro saem hoje, a confiança atingiu, em agosto, o menor nível desde abril de 2009.
Para Cristiano Oliveira, economista-chefe do Banco Fibra, os dados indicam pelo menos dois trimestres de atividade fraca, o que o faz enxergar "com dificuldade" as projeções do BC, de alta de 0,7% do PIB em 2014. "A nossa projeção é zero para o ano e de algo próximo disso para o ano que vem, porque as expectativas devem demorar a reagir", diz. Ele espera queda de 0,1% no PIB do último trimestre.
No varejo, espera-se o menor crescimento de vendas em cinco anos (alta de 1,5%) para o Dia das Crianças, segundo a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL). Além disso, o BC informou que o saldo das operações de crédito para compra de veículos caiu em agosto pelo sétimo mês seguido, apesar da liberação de depósitos compulsórios e outros estímulos concedidos entre o fim de julho e começo do mês passado.
No caso da construção, "estamos claramente assistindo ao fim do ciclo imobiliário e as obras de infraestrutura, que até o início do ano seguraram o setor, não conseguiram mudar a dinâmica crescimento", diz a coordenadora de projetos da construção da FGV, Ana Maria Castelo. Para ela, os efeitos da conjuntura sobre a confiança também não podem ser desprezados. "Inseguras, as pessoas estão adiando as decisões de comprar e as empresas, de lançar".
Ainda assim, em setembro, a confiança do consumidor foi a única a apontar alguma trégua, ao subir 0,7%, após queda de 4,3% no mês anterior. Não há, no entanto, quem enxergue no dado o que se pode chamar de virada de humor. Para o Bradesco, "a despeito da alta no indicador agregado no mês, as últimas leituras apontaram tendência de recuo, de tal forma que acreditamos que o consumo deverá continuar moderado nos próximos meses", diz a equipe econômica, em relatório. Mesmo que o indicador tenha crescido na margem, o ano é de queda, diz Flavio Serrano, economista-sênior do Besi Brasil. "Se a gente não entender que é preciso solucionar o problema da inflação, não vamos criar condições de crescer de forma mais sustentável".
Oliveira, do Fibra, diz que a confiança da indústria é a primeira que sente a desaceleração, seguida pelo setor de serviços e, por último, do consumidor". "Há uma relação de causalidade entre os índices de confiança e não vejo a do consumidor melhorando", diz. O economista destaca box do BC, divulgado com o Relatório de Inflação, cujo foco é a causalidade entre os índices de confiança, sugerindo que choques na confiança da indústria têm efeitos sobre inflação e atividade, enquanto choques na confiança do consumidor não apresentariam efeitos diretos significativos sobre essas variáveis.
Fonte: Valor, por Flavia Lima, Juliana Elias e Ana Conceição , 01/10/2014

