“Se um credor de títulos brasileiros vê que o Brasil está decretando moratória de uma dívida transitada e julgada, com decisão da mais alta corte, que confiança terá na liquidez do país?” Já passavam das 3h da tarde quando Paulo Guedes ouviu de um interlocutor o alcance das medidas anunciadas na hora do almoço. Àquela altura, o dólar já tinha batido os R$ 5,57 e o interlocutor de Guedes se deu conta de que só naquele momento o ministro havia percebido a barbeiragem da solução encontrada para viabilizar o programa de renda básica.
Em 2009 o Congresso estabeleceu o regime especial de pagamento de precatórios, que criou um teto de 2% da receita corrente líquida de Estados e municípios para sua quitação. Quatro anos depois, o Supremo considerou a mudança no regime de pagamento inconstitucional. Se a Corte tomou a decisão para Estados e municípios não haveria como aceitar uma solução distinta para a União. Se R$ 55 bilhões por ano de precatórios em tempos de pandemia pareciam exagerados, uma solução poderia ser buscada por acordo, mas não no afogadilho, como aparecera ali. Foi assim que o rastilho de pólvora se espalhou pela oposição, por boa parte da base governista e chegou às redes sociais em letras garrafais: “É calote”!
O ministro do Tribunal de Contas da União Bruno Dantas, capitão da equipe que decretou as pedaladas de Dilma Rousseff foi ao Twitter para acusar as novas roupagens da contabilidade criativa: “Sobre usar o dinheiro dos precatórios, também parece truque para esconder fuga do teto de gastos: reduz a despesa primária de forma artificial porque a dívida não desaparece, apenas é rolada para o ano seguinte. Em vez do teto [de gastos] estimular a economia de dinheiro, estimulou a criatividade”.
A solução montada para a “Renda Cidadã” já estava fraturada pela metade. A outra não mexeu no mercado mas despertou uma reação do Congresso ainda maior e contaminou as redes sociais. O governo parecia nada ter aprendido com a goleada no Fundeb. Perdeu quando tentou usar o fundo para financiar o Bolsa Família e acabou tendo que aumentar sua fatia mais do que estava acordado. Voltou a reincidir no mesmo erro, desta vez com a Renda Cidadã. “O goleiro que viu passar a bola debaixo das pernas foi pegá-la dentro do gol e a entregou na linha do pênalti para ser goleado de novo”, resumiu uma fonte que acompanha a negociação.
Na tentativa de salvar o teto de gastos, Paulo Guedes só aumentou a desconfiança de que não tem alternativa para mantê-lo. Os mais experientes da base política do governo já perceberam há muito tempo o quão perdido está o ministro. Continuam a dar corda para na expectativa de que Guedes não demore a puxá-la.
Fonte: Valor Econômico -Brasil, por Maria Cristina Fernandes - São Paulo, 29/09/2020

