falta de reserva financeira atinge mais de metade das micros e pequenas empresas brasileiras, são 52%, de acordo com a pesquisa Sondagem das Micro e Pequenas Empresas, realizada pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e antecipada ao Valor. Desse conjunto, 12% informam que, além de não disporem de poupança, enfrentam dificuldades para pagar as contas em dia. A pesquisa ouviu 1.500 empresas entre os dias 1 e 27 de agosto.

A situação já esteve pior. No ano passado, as reservas em poder das microempresas equivaliam a dois meses de faturamento. Hoje, correspondem a três meses.

“Sob o aspecto da saúde financeira, o quadro é razoavelmente bom”, avaliou o presidente do Sebrae, Carlos Melles. Ele acredita que as medidas adotadas pelo governo, no combate aos efeitos econômicos da pandemia, evitaram uma deterioração mais profunda da situação financeira das empresas, embora tenham prejudicado o lado fiscal, com gastos extras de quase R$ 1 trilhão.

Obstáculos que travam a recuperação

O quadro à frente é desafiador, reconhece Melles. “Nós nunca tivemos uma convergência de tanta coisa chata num momento tão esperado de recuperação”, afirmou. Citou o aumento do preço do gás, dos combustíveis, o risco de escassez de energia e o elevado custo da cesta básica como fatores que nublam o horizonte à frente.

“Esses fatores não são positivos, mas podem ser superados”, afirmou. Outra pesquisa realizada pelo Sebrae sobre o impacto da alta da energia e matérias-primas mostrou que os pequenos negócios são afetados por esses elementos, mas seguem apresentando indicadores positivos. Por exemplo, menor índice de endividamento e menos empresas registrando queda no faturamento.

São dados que, na visão do presidente do Sebrae, não são bons como poderiam. Porém, não chegam a ser negativos.

“A recuperação está em curso, mas é desigual, apontou o assessor especial do Ministério da Economia, Guilherme Afif Domingos, que presidiu o Sebrae. Alguns setores conseguiram até aumentar sua renda com a crise sanitária, enquanto outros enfrentam dificuldades. “A pandemia produziu os falecidos e também os falidos”, disse.

Como estão os setores

setor de alimentação fora do domicílio, um dos mais atingidos pela pandemia, ainda opera com dificuldade. Em julho, 64% dos estabelecimentos estava com contas em atraso.

“É um indicador de total falta de reservas, falta até de liquidez”, comentou o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci. Naquele mês, 37% informaram operar com prejuízo. As empresas esperam retornar ao seu nível normal de endividamento em dois a cinco anos.

De acordo com a pesquisa do Sebrae, 59% das micros e pequenas empresas do setor de serviços estão sem reservas. Entre as do comércio, 44,5% estão nessa situação. Na indústria, são 50,1%. São índices mais elevados do que o conjunto das empresas brasileiras de todos os portes, onde a falta de reserva é problema de 35%.

Entre as empresas que têm reservas, 48% pretendem utilizá-las nos próximos 12 meses. Indústria é o setor onde a intenção de uso de reservas é mais elevado. O destino são investimentos em máquinas, equipamentos e infraestrutura.

Já entre as empresas do setor de serviços, 42% pretendem usar suas reservas, principalmente, para investimentos em máquinas, equipamentos e modernização. O pagamento de dívidas está no plano de 23,3% delas. No comércio, 41,5% que pretendem usar os recursos devem investir, principalmente, na antecipação de compras de insumos e matérias-primas e em infraestrutura

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Lu Aiko Otta, Valor — Brasília, 28/09/2021