Um dia após o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deixar a porta aberta para novas reduções de juros, os investidores correram para colocar nos preços o cenário de Selic abaixo de 5%. O resultado das apostas foi claro: de ponta a ponta, os juros futuros tiveram forte queima de prêmio de risco, principalmente, nos vencimentos de curto prazo - mais sensíveis a expectativas de política monetária.

Com a queda das taxas de juros futuras, o mercado passou a projetar a Selic em cerca de 4,90% no fim deste ano, de acordo com os cálculos da Quantitas. São 80% de chances de corte de 0,50 ponto percentual na próxima decisão do Copom, em outubro, contra 20% de queda de 0,25 ponto. O movimento se estendeu ainda para as precificações de 2020, que praticamente zeraram as chances de uma elevação do juro básico no primeiro semestre do ano que vem.

Sob intenso volume de negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020 caiu de 5,175% para 5,125%, enquanto a do DI para janeiro de 2021 recuou de 5,22% para 5,05%, depois de ter perdido o nível de 5% ao longo do dia.

Além da queda da Selic e das taxas de mercado, o que chama a atenção é o nível do juro real, em que é descontada a inflação. Levantamento do Valor Data mostra que, com a Selic em 5,50%, o Brasil está em 59º no ranking das maiores taxas ao se considerar um universo de 162 países. Já o juro real projetado de 2,02% coloca o Brasil na 70ª posição, com taxa menor que rivais emergentes como África do Sul, Índia, Rússia e México.

“Com o juro real próximo de 1% e uma dívida de 90% [do PIB], além de uma moeda que tem uma das maiores volatilidades entre os emergentes, quem entra hoje em Brasil é apenas para comprar taticamente”, diz Drausio Giacomelli, chefe de estratégia para mercados emergentes do Deutsche Bank. Para ele, o Brasil deixou de ser uma opção nos mercados de renda fixa em moeda local e está no bolo de outras economias emergentes, como Malásia e Indonésia, além de África do Sul, Índia, Rússia e México. “Antes, o Brasil era campeão entre esses países”, afirma.

A perspectiva do Deutsche é de uma nova redução na Selic de 0,50 ponto percentual em outubro, o que levaria o juro básico à mínima histórica de 5%, nível que se manteria até o fim de 2020. Giacomelli aponta, contudo, que a Selic pode chegar a 4,75% ou 4,50% num cenário alternativo, “porque o hiato do produto até abriu na margem [para essa possibilidade]”.

O apontamento do Copom de que “a consolidação do cenário benigno para a inflação prospectiva deverá permitir ajuste adicional no grau de estímulo” provocou surpresa em algumas instituições, enquanto outras também se mostraram atentas aos cenários de inflação apresentados pelo BC para o próximo ano, com as estimativas sempre abaixo do centro da meta.

“Antes, não víamos o BC acreditando nesse cenário favorável para os preços. Por isso, agora, vemos que há grandes chances de a Selic chegar a 4%”, diz Daniel Weeks, economista-chefe da Garde. Ele acredita que os números de inflação devem permanecer confortáveis ao longo do próximo ano, apesar da possibilidade de um dólar mais forte devido ao menor diferencial de juros em relação aos Estados Unidos. Antes, a Garde esperava que o ciclo de afrouxamento do BC terminaria com o juro a 4,50%.

Citi, Safra e Rabobank foram outras instituições que revisaram suas projeções e, agora, esperam que o juro básico chegue a 4,50%. Outros bancos, porém, optaram por adotar uma abordagem mais cautelosa e esperar pela divulgação da ata do Copom e do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) na próxima semana. É o caso do Barclays, que prefere aguardar os documentos para refinar o cenário. A menos que o real tenha um desvalorização significativa nas próximas semanas, os economistas Roberto Secemski, Juan Prada e Erick Martinez acreditam que uma extensão do ciclo para 4,75% até dezembro seja, agora, plausível.

O Itaú Unibanco afirma que as projeções de inflação do BC sugerem que a Selic pode testar níveis ainda mais baixos, caso as estimativas continuem a recuar. Por ora, o banco trabalha com Selic a 5% em 2019, mas aponta que ainda vai observar tanto novos indicadores quanto a evolução da comunicação do Banco Central.

 


Fonte: Valor - Finanças, por Victor Rezende - de São Paulo, 20/09/2019