Com a lenta recuperação da economia, o ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do governo Temer deverá ser o terceiro pior do período pós-redemocratização, superando apenas o desempenho das administrações de Dilma Rousseff e de Fernando Collor de Mello, mostram cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), feitos a pedido do Valor.
Segundo o levantamento, a variação média trimestral do PIB no governo Temer foi de 0,25% até o segundo trimestre deste ano (série com ajuste sazonal), contado o mandato a partir de 12 de maio de 2016, quando a petista foi afastada por 180 dias e Temer assumiu a Presidência.
Levando em conta as projeções do Ibre/FGV para a economia em 2018, a variação média trimestral do PIB no governo Temer caminha para ser positiva em 0,34% no fim do mandato.
Nas projeções do instituto, a economia brasileira vai crescer 1,5% neste ano, em comparação ao ano passado. Pelo boletim Focus, do Banco Central (BC), a mediana do mercado aponta para alta de 1,36% no PIB.
Se confirmada a projeção, o desempenho na gestão Temer será um pouco melhor que a média trimestral do PIB dos governo de Dilma Rousseff (alta de 0,02%, considerando os dois mandatos) e Fernando Collor (retração de 0,1%). São, respectivamente, o penúltimo e o último colocados da lista - dois presidentes que sofreram impeachment em circunstâncias políticas e sociais diferentes.
"O governo Collor foi marcado pelo fracasso de planos econômicos e pela turbulência do processo de impeachment. Foi um período de grande recessão", disse a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre e autora dos cálculos com a economista Luana Miranda, também do Ibre/ FGV. "É difícil imaginar impeachment sem crise econômica. A crise em geral ajuda a enfraquecer um presidente da República, com perda de apoio social e político."
O presidente com melhor média de crescimento trimestral foi, curiosamente, Itamar Franco (1,6%), ajudado pelo boom de consumo das famílias proporcionado pelo Plano Real. Na sequência de melhor ritmo aparece o governo Lula, com um crescimento médio de 1,2% por trimestre. A economia avançou ainda 0,9% na média trimestral do governo José Sarney, o primeiro do período pós-redemocratização.
Em termos de variação acumulada do PIB - do início do fim do mandato -, o melhor desempenho foi do governo Lula. No agregado dos dois mandatos do ex-presidente, atualmente preso em Curitiba, a economia cresceu 37,4%. Nenhum governo se aproxima desse avanço nas últimas três décadas.
O segundo governo com maior crescimento acumulado foi o de José Sarney (18,1%). Neste caso, é preciso relativizar a baixa base de comparação do período anterior.
A economista lembra que a relação entre desempenho da economia e o mandato presidencial precisa ser, em parte, relativizada. Afinal, presidentes colhem resultados econômicos "plantados" pelo antecessor no cargo - o que vale tanto para o bem, quanto para o mal. Um dos exemplos bem acabados disso é Dilma e Temer, embora não seja o único do período.
"Ciclo econômico e ciclo político podem ser muitos distintos. O primeiro mandato de Dilma teve uma marcha forçada para manter o crescimento elevado, com uso desvirtuado da política fiscal e intervenções microeconômico. Plantou-se uma das maiores recessões da história. Isso deixou uma herança maldita para o segundo mandato dela e também para Temer", afirmou a economista do Ibre/FGV.
Lucas Souza, economista da Tendências, disse que o governo Temer foi marcado por baixo crescimento por uma série de fatores, como o elevado nível de endividamento do setor público e das famílias, a frágil confiança na recuperação da economia e ainda a elevadas incertezas políticas, que foram agravadas com o escândalo das gravações de Joesley Batista, da JBS. Ele vê, contudo, méritos do governo na retomada.
"A retomada gradual da economia observada nos últimos meses recebeu contribuição de algumas práticas reformistas, como a PEC do teto dos gastos e a modernização trabalhista. Também houve melhora substancial de fundamentos macroeconômicos, como a queda dos juros básicos, a retomada gradual do emprego e controle inflacionário", avaliou o economista.
Ao calcular o desempenho de Temer, o levantamento considerou o início de seu mandato em 12 de maio, quando Dilma foi afastada por 180 dias do cargo. O mandato da petista foi definitivamente cassado, porém, em 31 de agosto de 2016.
Se fosse considerado esse recorte temporal, de agosto de 2016, o crescimento trimestral médio do PIB de Temer seria de 0,2% até o segundo trimestre e de 0,3% ao fim do mandato, também superando o de Dilma no período (estável).
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Bruno Villas Bôas, 19/09/2018

