A opção por construir cidades centradas no transporte por carros não é mais viável nem para países desenvolvidos, nem entre os emergentes, acredita Ani Dasgupta, diretor global do WRI Ross Center para Cidades Sustentáveis.
Segundo Dasgupta, nos próximos anos, mais 2,5 bilhões de veículos chegarão às ruas das metrópoles globais, agravando a emissão de poluentes e as mudanças climáticas. "São 700 mil mortes por ano
no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), causadas pela poluição do ar", diz. Os prejuízos, no entanto, não se limitam ao meio ambiente.
"O problema é também de produtividade. Buenos Aires perde 4% do PIB em congestionamentos. A Cidade do México perde 2,5% e São Paulo, 8%." Apesar disso, Dasgupta acredita que é possível construir um no vo modelo de urbanização, mais adequado a uma economia de baixa emissão de carbono.
"Ao todo, 60% dos espaços de moradia ainda precisam ser construídos para que todos os habitantes do planeta tenham uma moradia", explica. "Então, as decisões que tomarmos hoje irão afetar profundamente o modo de vida nas cidades nas próximas cinco décadas."
A construção desse novo modelo de cidade pode ser sustentável do ponto de vista econômico, defende Dasgupta. "A transição teria um impacto econômico gigantesco, algo da ordem de US$ 3 trilhões num período de 15 anos", estima. O retorno seria compensador. "A economia de energia gerada chegaria a US$ 17 trilhões e 3,7 GigaToneladas de CO2 deixariam de ser emitidas. Isso corresponde a algo entre 20% e 50% da redução necessária para um futuro sustentável", afirma.
Uma das soluções apontadas por Dasgupta é dar prioridade a um modelo de crescimento mais compacto. "Hoje, as cidades são muito espalhadas, com distâncias muito grandes, o que dificulta as soluções de transporte sustentável", diz. Além disso, devese buscar inovações que ajudem a tornar o transporte público mais barato e inclusivo, reduzindo a dependência do automóvel. "Em países como o México, os trabalhadores chegam a gastar 40% de sua renda com o transporte", afirma. "Reduzir esse gasto para 10% teria um impacto social tremendo."
"Evidentemente, isso tudo exigiria ações coordenadas entre os diferentes níveis de governo e a sociedade civil em cada país", continua Dasgupta. Ele acredita também que é necessário intensificar o intercâmbio entre as metrópoles ao redor do globo, para desenvolver as práticas mais eficientes de transporte sustentável. "Nenhuma cidade pode resolver o problema sozinha. É preciso trocar experiências", diz.
A troca de informações sobre projetos de BRT é um claro sinal de que essa cooperação já começa a acontecer. "Hoje, há mais de 200 projetos desse tipo em andamento em todo o mundo", diz. Além disso, os governos centrais precisam se envolver diretamente na questão, financiando e impulsionando projetos de transporte sustentável, defende Dasgupta. "Organismos como o Banco Mundial, por sua vez, poderiam saltar etapas na aprovação de crédito para projetos que usam soluções já testadas com sucesso em outras regiões", conclui.
Fonte: Valor - Brasil, por Carlos Vasconcellos , 16/09/2015

