O setor cimenteiro brasileiro fará durante os próximos 15 meses um mapeamento de suas emissões de gás carbônico e de sua eficiência energética. O objetivo do trabalho, feito em parceria com entidades globais da área, de sustentabilidade e de energia, é identificar quais tecnologias podem ser adotadas no país para reduzir o consumo de energia e contribuir para conter o aquecimento global.

A expectativa da Agência Internacional de Energia (IEA), do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) e da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), que estão envolvidos com o estudo, é terminar até o fim do ano que vem.

"Será interessante para indicar o que poderá ser feito no setor. Ainda mais agora que o Brasil enfrenta essa situação de seca e falta de energia, com preços em alta", diz Cecilia Tam diretora da IEA. Ela coordena a área de tecnologia e demanda de energia da agência e trabalha no mapeamento ajudando a aplicar modelos desenvolvidos pela agência à realidade de cada país estudado.

O trabalho já foi feito com o setor de cimento na Índia, onde Cecília diz que verificou-se, entre outros pontos, a possibilidade de elevar a recuperação energética de lixo e biogás e de adotar projetos de diferentes fontes para geração de energia. Há também um mapeamento global, que foi um primeiro passo para o levantamento de dados do setor, mas que não trouxe detalhes por regiões.

O resultado poderá indicar para as companhias caminhos para investir, com retornos econômicos satisfatórios, em redução de gasto de energia e de emissão de gases. "É preciso achar um balanço para que a adoção de novas tecnologias faça sentido em termos de retorno dos investimentos", diz Philippe Fonta, diretor do Conselho Mundial de Desenvolvimento Sustentável e da Iniciativa para a Sustentabilidade do Cimento (WBCSD/CSI).

No caso da Índia, ele diz que algumas companhias se voluntariam para testar as sugestões do mapeamento. "Pode ser necessário que peçam incentivos, por exemplo, no caso da substituição de energia de carvão por energia de lixo", afirma. Entre as soluções que o trabalho poderá indicar, ele cita a possibilidade da adição de outros materiais ao clínquer, para reduzir a emissão de gases na produção do cimento.

Um outro aspecto que deve ser avaliado, segundo a diretora do IEA, é a redução do uso do coque de petróleo na indústria cimenteira. "Vamos avaliar todas as opções possíveis de matérias-primas. O trabalho também ajuda a criar conversas com o governo para que sejam adotadas políticas que façam sentido com as mudanças climáticas", afirma.

O Brasil já tem uma indústria cimenteira desenvolvida, resultado de esforços do setor após crises energéticas na década de 70, afirma José Otavio Carvalho, presidente do SNIC. Mas ele afirma que o setor tem o desafio de continuar suas operações mantendo seus padrões de competitividade e que o mapeamento ajudará nesse sentido.

"A indústria do cimento é intensiva no consumo de energia, tanto elétrica como térmica, além de um emissor razoável de gás carbônico. Esse mapeamento, que é uma iniciativa pioneira no Brasil, pode desenvolver um trabalho interessante para avançarmos mais nessas questões", afirma.

Para o IEA, um dos principais objetivos com o mapeamento é observar os desenvolvimento de captura e estoque de carbono na indústria cimenteira ao redor do mundo, diz a diretora.

O "Mapeamento Tecnológico do Cimento - Brasil", como será chamado o trabalho, terá projeções para até 2050. Para financiar os estudos, o SNIC poderá ter apoio financeiro da Corporação Financeira Internacional (IFC, na sigla em inglês) e do Banco Mundial, que já foi parceiro da iniciativa na Índia.


Fonte: Valor, por Olivia Alonso, 12/09/2014