A economia brasileira cresceu 1,50% em julho sobre o mês anterior, indicou o Banco Central nesta sexta-feira (12). O resultado, acima do esperado, é o melhor dos últimos seis anos e um sinal de que a economia pode ter começado o terceiro trimestre em recuperação, após cair em recessão.

O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) mostrou que a atividade voltou a crescer após duas quedas mensais seguidas. O resultado de julho passado foi o melhor desde junho de 2008, quando a expansão foi de 3,32%, antes do auge da crise internacional.

O IBC-Br incorpora estimativas para a produção nos três setores básicos da economia: serviços, indústria e agropecuária, assim como os impostos sobre os produtos. O indicador já foi considerado uma "prévia" do PIB (Produto Interno Bruto), mas deixou de ser usado desta forma, já que os resultados podem não ser próximos aos do IBGE.

Em junho, o indicador havia mostrado contração de 1,51% sobre maio, em dados dessazonalizados, isto é, em cálculos que desconsideram influências do período no estudo. O índice foi revisado pelo BC, que anteriormente divulgou queda de 1,48% no mês.

O resultado de julho também foi melhor que o esperado em pesquisa da Reuters, cuja mediana de 21 projeções apontava alta de 0,80% em julho.

Na comparação com julho de 2013, o IBC-Br recuou 0,31% e acumula alta de 1,14% em 12 meses, ainda segundo dados dessazonalizados.

ANALISTAS

"Vemos o número mais alto do que o esperado principalmente como recuperação técnica de um segundo trimestre profundamente negativo. Portanto, não é indicativo de clara tendência de recuperação econômica", destacou o diretor de pesquisa econômica do Goldman Sachs para América Latina, Alberto Ramos.

Para o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, o IBC-Br de agosto deve apontar para estagnação da economia, e portanto a alta de julho "não representa uma retomada de expansão sustentável".

"Por enquanto, os dados apontam economia próxima da estagnação no terceiro trimestre, o que não seria bom em virtude das contrações nos primeiros trimestres. O que se espera é que volte a crescer", disse ele, que estima alta do PIB de 0,2% neste ano.

RECESSÃO

A economia brasileira entrou em recessão no primeiro semestre, afetada sobretudo pela indústria e pelos investimentos em queda. O cenário de atividade fraca vem junto com o de inflação ainda elevada, num momento em que a presidente Dilma Rousseff (PT) tenta a reeleição.

Em julho, a produção industrial havia avançado 0,7% frente a junho após cinco meses de queda, ainda que os dados tenham sido encarados com cautela por agentes econômicos, que ainda não estavam convencidos na tendência de recuperação.

No mesmo período, no entanto, as vendas no varejo recuaram 1,1%, muito pior do que o esperado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Já o índice oficial de inflação, o IPCA, voltou a acelerar em julho, mês em que teve alta de 0,25%. O aumento se deu diante do fim do ciclo de quedas expressivas dos preços dos alimentos e sob impacto de reajustes de energia elétrica.

Com o resultado, a inflação voltou a superar o teto da meta do governo no acumulado de 12 meses, que soma 6,51%. O centro da meta para a inflação adotada pelo governo é de 4,5% no ano, com margem de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Segundo o BC informou nesta quinta-feira (11), a expectativa é a de que a inflação só comece a ceder a partir do primeiro trimestre de 2016.

Com esse cenário de recessão e inflação, a autoridade monetária optou por manter a taxa básica de juros do país a 11% ao ano.

PROJEÇÕES

A alta do IBC-Br em julho poderá ter um efeito sobre as estimativas dos principais analistas do mercado financeiro para o PIB de 2014.

Na última consulta realizada pelo BC, divulgada nesta segunda (8), os economistas reduziram pela 15ª vez consecutiva suas expectativas para o crescimento econômico do país.

Os cálculos foram influenciados pelo resultado do PIB do segundo trimestre, que confirmou a recessão técnica, e caíram para 0,48% nesta semana. Para o ano que vem, os analistas esperam um crescimento de 1,1% do PIB.

Por um outro lado, as projeções para o IPCA em 2014 foram elevadas para uma mediana de 6,29%, ante 6,27% na semana passada.


Fonte: Folha de São Paulo, 12/09/2014