Destoando do restante do mercado que sofreu com o tombo das bolsas de Nova York, as ações dos grandes bancos do país se destacaram de maneira positiva na bolsa ontem. Os papéis tiveram firme alta e um expressivo volume de negócios. Segundo profissionais, houve um claro movimento de rotação da carteira de alguns fundos, que vendem papéis ligadas ao varejo on-line - que acumulam ganhos impressionantes no ano - para comprar ações dos grandes bancos, consideradas descontadas diante do mercado.
O Ibovespa fechou em queda de 1,17%, aos 100.721 pontos, depois de cair até 99.751 pontos nas mínimas do dia. Tudo isso com um giro financeiro intenso, de R$ 29,6 bilhões, bem acima da média diária no ano de R$ 20,7 bilhões. Apesar do tombo, o movimento foi mais ameno do que em Wall Street. Por lá, o índice Nasdaq - que é mais centrado em tecnologia - recuou 4,96%, enquanto o Dow Jones cedeu 2,78% e o S&P 500 caiu 3,51%.
O que chamou bastante a atenção, entretanto, foi o avanço do setor bancário. Desde cedo, as ações de Bradesco, Santander e Itaú Unibanco estiveram entre as maiores valorizações do índice, com grande volume de negociação, na esteira de recomendações mais favoráveis de analistas e um movimento global de busca por papéis mais cíclicos, como os próprios bancos e empresas ligadas a commodities.
As ações preferenciais do Bradesco subiram 3,93% enquanto as ordinárias ganharam 3,83%. Já as units do Santander subiram 3,38% e os papéis preferenciais do Itaú Unibanco avançaram 2,43%. Mesmo Banco do Brasil ON, que ficou um pouco atrás dos outros, teve alta firme de 1,56%.
E foram justamente as ações de Bradesco e Itaú - os dois maiores bancos privados do país - que encabeçaram o maior volume de negociações durante boa parte do dia: Bradesco ON teve giro de R$ 2,3 bilhão e Itaú PN, de R$ 1,9 bilhão.
Profissionais do mercado notam que há uma mudança global na tendência dos investimentos, com uma procura maior por papéis mais cíclicos, ligados ao ciclo econômico, em substituição às ações de tecnologia.
No Brasil, essa rotação na carteira explica, portanto, a forte queda de papéis ligadas ao comércio eletrônico, como B2W ON (-7,57%), Via Varejo ON (-6,89%), Magazine Luiza ON (-5,36%) e Lojas Americanas PN (-5,22%). São papéis que acumulam expressiva valorização no ano e que, ontem, recuaram. Via Varejo ON, inclusive, foi o papel mais negociado do dia.
A busca por papéis do setor bancário se apoia também em avaliações mais favoráveis de analistas. O Bank of America (BofA), por exemplo, elevou a recomendação do setor financeiro para “marketweight” - ou seja, em linha com a média do mercado. Segundo o banco, o setor ficou muito aquém do Ibovespa no ano e apresenta preços atrativos. “Os bancos se beneficiariam de qualquer fluxo de investidores estrangeiros”, pois são grandes e líquidos com cerca de 30% do índice. Também ganhariam com “qualquer vislumbre de rotação para estratégias de valor dadas os preços descontados”, afirmam os analistas do BofA.
O BofA só não elevou o setor para uma recomendação acima da média - ou “overweight”, no jargão do mercado - dado os retornos sobre patrimônio (ROE) em mínimas históricas, spreads em queda e incerteza geral dos lucros.
Já o Itaú BBA trabalha com um cenário favorável para o setor e revisou as projeções de lucros em 7% em 2020 e 11% em 2021, na média, para os bancos brasileiros. A mudança reflete uma expansão mais forte da carteira de crédito, pressão reduzida nas receitas de taxas e menores provisões para perdas com empréstimos do que o inicialmente esperado.
Os profissionais do Itaú BBA reconhecem que grande parte dos investidores institucionais (locais e estrangeiros) estão com posição abaixo da média no setor por uma série de razões. “Em suma, os investidores acreditam que a lucratividade dos grandes bancos vai se estabilizar em níveis muito inferiores aos verificados nos últimos dez anos, ou seja, uma média de 20% a 22%”, dizem. Ainda assim, “acreditamos que a rentabilidade dos bancos irá melhorar no segundo semestre de 2020, com novos desenvolvimentos positivos no ano de 2021”, afirmam.
Logo, para os investidores que estão mais céticos sobre as perspectivas do setor no longo prazo, eles sugerem adicionar exposição via “call spread” no Bradesco, estratégia com opções de compra (call) conhecida como “trava de alta”, e composta por duas operações simultâneas: compra de call, com determinado preço de exercício, e venda de outra call, com quantidade e vencimento idênticos, porém com preço de exercício superior.
De fato, existe um certo ceticismo no mercado sobre a valorização dos grandes bancos. No entanto, alguns profissionais já veem uma assimetria demasiada entre o setor bancário e outros segmentos da bolsa, como o varejo. Para um grande gestor que preferiu não ser identificado, se de fato houver uma crise de crédito como a que as ações dos bancos parecem precificar, o país estaria em uma situação muito mais grave e as varejistas, que acumulam firme alta, sofreriam esse impacto até antes que o setor financeiro.
Algumas grandes gestoras seguem posicionadas no segmento - a exemplo, da Ibiuna. “Os resultados reportados pelos bancos aumentaram as preocupações dos investidores em relação à redução de receitas devido aos planos de renegociação de dívidas com taxas menores. Desta forma, a incerteza em relação à volta dos retornos sobre patrimônio (ROEs) dos bancos aos patamares pré-pandemia persiste, e afetou a performance das ações listadas. Apesar desse revés transitório, mantivemos nossas posições dada nossa tese de investimento baseada na nossa projeção de ROEs para patamares mais normalizados já em 2021 dado os altos níveis de provisionamento já constituídos pelos bancos”, dizem os profissionais na carta referente a agosto.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata e Marcelle Gutierrez - São Paulo, 04/09/2020

