
A perspectiva de que o governo buscará avançar na agenda de reformas abriu caminho para uma valorização expressiva dos principais ativos brasileiros e ofuscou o tombo histórico da economia entre abril e junho. Apesar do solavanco na atividade, o Ibovespa subiu quase 3% enquanto o dólar comercial voltou a operar abaixo de R$ 5,40 diante da promessa do presidente Jair Bolsonaro de que encaminhará a reforma administrativa ao Congresso ainda nesta semana.
O principal índice da bolsa de valores fechou com valorização de 2,82%, aos 102.168 pontos, bem próximo da máxima do dia, de 102.238 pontos, quando avançava 2,89%. O volume financeiro somou R$ 19,95 bilhões, um pouco abaixo da média diária de 2020, de R$ 20,7 bilhões.
Já o dólar comercial encerrou o dia em queda de 1,75%, cotado a R$ 5,3852, em um movimento beneficiado também pelo clima favorável a ativos de risco no exterior. Com isso, a moeda registrou o menor patamar de fechamento desde 13 de agosto, quando ficou em R$ 5,3666.
Os mercados reagiram rapidamente ao anúncio do presidente Jair Bolsonaro. Após reunião matinal com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e líderes do Congresso, o presidente oficializou a extensão do auxílio emergencial até o fim de dezembro, com o valor de R$ 300, e anunciou que vai encaminhar um projeto de uma reforma administrativa até quinta-feira.
Com o anúncio, “Guedes amarra o auxílio e o Renda Brasil com a reforma administrativa. Salva o teto de gastos e emplaca uma das mais importantes reformas do funcionalismo público”, afirma Jefferson Lima, responsável pelas mesas de câmbio e juros da CM Capital.
Todos esses temas acabaram diminuindo o impacto do resultado negativo do PIB do segundo trimestre. Segundo o IBGE, a economia brasileira contraiu 9,7% entre abril e junho, abaixo da mediana das projeções colhidas pelo Valor Data, que era de 9,2%. Apesar de maior que o previsto, indicadores antecedentes mostrando forte retomada desde a reta final do período e a extensão do auxílio emergencial pintam um cenário menos adverso para o restante do ano.
De qualquer forma, ainda há bastante incerteza sobre os rumos da atividade. Algumas instituições alteraram suas estimativas para o PIB de 2020 - algumas para cima e outras ainda mais para baixo -, mas a amplitude dos números permanece elevada, indo de uma contração de 6,5% a um queda de 4,5%.
“A economia sofreu fortes abalos da crise da covid-19 no segundo trimestre. Com certeza, embora abril tenha sido o pior mês para a maioria dos setores, algumas categorias ainda lutam para se recuperar e isso é especialmente verdadeiro no setor de serviços”, afirma o economista-chefe do Bradesco BBI, Dalton Gardimam, cuja estimativa para o PIB deste ano ficou inalterada em -6%.
Diante do tamanho da crise, mostrado pelos números do trimestre, as atenções se concentram ainda no passo a passo do governo. Apesar da animação no mercado com a retomada da agenda de reformas, vale dizer que pouco se sabe sobre o que vai ser apresentado ainda esta semana. Além disso, é preciso levar em consideração a ressalva de que os atuais servidores serão poupados da proposta. Tudo isso indica que ainda há dúvida sobre de onde virão os recursos para acomodar o Renda Brasil sem furar o teto - questão que tem pesado no ambiente de negócios nas últimas semanas.
“A lógica que leva a reduções de despesas em outras fontes deveria ocorrer. Literalmente, aumentar a arrecadação não é suficiente, já que o teto atua pura e simplesmente na despesa”, diz. “Não vejo solução clara e aí que entra a beleza do teto: era esperado que, ao se chegar próximo das restrições previstas, ele fosse questionado, mas que também houvesse debate sobre que orçamentos podem ser realocados”, diz Guilherme Attuy, economista-chefe da Gauss Capital.
Durante a tarde, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), lembrou que a reforma tributária e a PEC dos gatilhos do teto de gastos têm prioridade, já que sua tramitação está mais avançada. No entanto, ele afirmou estar otimista e disse que é possível votar tanto a reforma tributária quanto a administrativa ainda este ano.
Para o economista-chefe do Rabobank no Brasil, Mauricio Une, o fato mais importante neste momento é a sinalização que o governo dá ao enviar a proposta. “A sinalização é pivotal no sentido de que demonstra disposição em manter o teto e as âncoras fiscais. Ainda teremos muitas peças para se acomodarem no tabuleiro até o fim do ano, como as eleições americanas e as municipais. Então o simples fato de já ter sido colocado em pauta, quando até ontem ninguém falava sobre isso, já pode ser considerado um evento positivo”, diz.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata, Marcelo Osakabe, Victor Rezende e Marcelle Gutierrez - São Paulo, 02/09/2020

