A queda do PIB da construção ficou aquém do esperado e reforçou a expectativa de uma retração no setor menor que a estimada no início da pandemia. Ainda assim, será forte e uma retomada consistente vai depender da recuperação da economia.

O recuo foi de 5,7% no segundo trimestre, sobre o primeiro, quando já tinha havido uma diminuição de 3,3%, na série com ajuste sazonal, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 12 meses, a queda acumulada é de 1,6%. Com o resultado de abril a junho, o PIB setorial voltou ao nível do primeiro trimestre de 2007.

“Sim, a construção sofreu, mas o resultado corroborou uma visão menos pessimista”, afirma Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). Se antes a expectativa era de queda de 10% no ano, agora roda em torno de 4% a 5%.

Castelo observa que indicadores do PIB do setor mostravam resultados díspares no segundo trimestre, como uma forte alta nas vendas de cimento e queda expressiva na mão de obra. Uma avaliação possível é que o aumento das reformas de imóveis feitas pelas famílias influenciou um resultado menos negativo.

Seja como for, as expectativas para o terceiro trimestre são positivas a julgar pela última sondagem de agosto. Houve aumento da confiança pelo quarto mês, volta do uso da capacidade instalada para níveis pré-pandêmicos e redução no percentual de empresas que aponta a falta de demanda como principal entrave. Em agosto, essa parcela era de 44,4%, menor nível em cinco anos, ante 60% em abril. O resultado está, em grande parte, relacionado ao bom desempenho recente das vendas no mercado imobiliário residencial. Houve também aumento entre as empresas que veem escassez de material e/ou equipamentos como maior problema: 7,8%, maior percentual desde setembro de 2010 (9,8%). É provável que essa dificuldade esteja relacionada ao crescimento expressivo da demanda de material por parte das famílias, afirma Ana Castelo.

“Há de fato uma retomada. Boa parte das minhas expectativas negativas estava relacionada à demanda”, afirma a economista, para quem uma parcela da população não se sentiu ameaçada pelas incertezas geradas pela pandemia e foi às compras. A questão, diz, é o quanto esse movimento vai se sustentar se a recuperação econômica se provar mais fraca. “É difícil imaginar que o mercado imobiliário vá continuar crescendo à revelia da economia”, diz.

Na parte de infraestrutura, as expectativas do setor privado não são tão ruins como há dois anos. Mas, com os investimentos do governo no chão, o país precisa cada vez mais de aportes privados, em especial os externos. “O cenário político, fiscal e ambiental é ruim e traz preocupações para a capacidade de reação desse segmento”, diz.

Para o Banco Fator, a construção imobiliária, que não caiu tanto, deve se recuperar. Mas a parcela ligada à infraestrutura ficará contida pelo peso das decisões de investimento, prejudicadas pela incerteza.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Ana Conceição - São Paulo, 02/09/2020