Com queda na ocupação e retração ainda forte nos rendimentos, o mercado de trabalho seguiu em deterioração no início do terceiro trimestre, mas economistas já veem alguma moderação no ritmo de ajuste. A taxa de desemprego subiu de 11,3% para 11,6% entre o trimestre móvel terminado em junho e igual período de julho maior resultado da série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, iniciada em 2012 pelo IBGE. Por outro lado, a renda real dos ocupados ficou praticamente estável nessa comparação, enquanto o aumento do emprego em segmentos mais precários seguiu perdendo fôlego.
A retração de 1,8% da população ocupada de maio a julho, em relação a igual período de 2015, foi a principal influência para a alta do desemprego, que subiu três pontos percentuais em igual comparação. Na medição anterior, a queda foi menor, de 1,6% Já a procura por emprego perdeu ímpeto: a força de trabalho (soma de empregados e desempregados) aumentou 1,5% no trimestre terminado em julho, ante avanço de 1,8% de abril a junho. Para especialistas, esse movimento indica que o desalento pode estar contendo a busca por vagas.
Num cenário de queda significativa da renda e perda de postos de trabalho, a População Economicamente Ativa (PEA) poderia estar crescendo em velocidade maior, avalia Fabio Romão, da LCA Consultores. A tendência, diz, é que a alta da força de trabalho se intensifique em 2017, quando a recuperação da economia ficará mais evidente. Como, no entanto, a oferta de ocupações não vai acompanhar o ritmo de avanço da PEA, a taxa de desemprego média deve subir mais de um ponto entre 2016 e 2017, de 11,3% para 12,5%, prevê a LCA.
Já a evolução da renda deve ser mais favorável no período e os dados de julho já apontam variação menos negativa para o dado, pondera Romão, embora seja cedo para vislumbrar recuperação. Na comparação com igual trimestre do ano anterior, a queda do rendimento médio real passou de 4,2%, em junho, para 3% no mês seguinte. Em relação ao trimestre imediatamente anterior, terminado em junho, observa o economista, a renda real dos ocupados ficou praticamente estável (alta de 0,3%).
"A deterioração do mercado de trabalho continua se ampliando, mas o ritmo dessa ampliação é menor. Podemos estar chegando num limite", comenta Romão, para quem a desaceleração da inflação explica a trajetória menos negativa da renda. Os números de julho, em sua visão, sinalizam um quadro melhor para o ano que vem, quando o rendimento médio real deve crescer 0,3%, depois de cair 2,2% em 2016. Nos cálculos da MCM Consultores, o movimento de precarização do mercado de trabalho com o aumento da participação de empregos que pagam menores salários na ocupação explica cerca de 0,7 ponto da redução dos rendimentos em relação a igual trimestre de 2015.
O processo de precarização no entanto, está se esgotando, afirma a equipe econômica da MCM: a expansão dos trabalhadores por conta própria tem se reduzido, o que contribui para uma queda maior do total de ocupados. O contingente de ocupados por conta própria aumentou 2,4% entre o trimestre móvel terminado em julho do ano passado e igual período deste ano, alta que já atingiu 7% na medição de fevereiro e, desde então, vem perdendo força. Na mesma comparação, o número de trabalhadores com carteira assinada no setor privado ficou 3,9% menor, enquanto o total de ocupados informais avançou 0,9%.
O trabalho informal está perdendo a capacidade de absorver parte dos desempregados, afirma o coordenador de trabalho e rendimento do IBGE, Cimar Azeredo. Na comparação com igual período do ano passado, o trabalho por conta própria ganhou 527 mil pessoas. O crescimento, no entanto, é o menor desde o trimestre encerrado em janeiro de 2015, quando 437 mil pessoas entraram nessa atividade. Por setores, a indústria ainda exerceu a principal contribuição negativa para ocupação, com redução de 10,6% no número de trabalhadores sobre igual trimestre móvel de 2015. Também eliminaram vagas no período de maio a julho os segmentos de agropecuária (2,1%), comércio (1,1%) e serviços (0,2%), segundo agregação feita pela LCA. Luiz Castelli, economista da GO Associados, destaca que o ritmo de demissões no setor industrial já diminuiu no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados Caged), tendência que deve ser captada pela Pnad nos próximos meses.
"Deve haver espaço para uma melhora", diz Castelli, para quem os dados de ocupação foram uma surpresa negativa em julho. Após a última divulgação da Pnad, a consultoria dele elevar ligeiramente sua projeção para a taxa média de desemprego em 2016, de 11,2% ara um número mais próximo de 11,5%.
Fonte: Valor - Brasil, por Arícia Martins e Robson Sales, 31/08/2016

