O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mostrou aceleração no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores, mas análises de períodos mais longos mostram o quanto a economia tem a percorrer até retomar o terreno perdido.
Apesar do crescimento acima do esperado, o PIB brasileiro avança sem fôlego, a uma taxa de 0,2% há nove trimestres, no cálculo de Alberto Ramos, diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs. Isso implica em um PIB per capita estagnado desde 2017. No segundo trimestre de 2019, o PIB per capita estava 8,8% abaixo do nível alcançado em igual período de 2014, diz o economista, em nota.
Já a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida de investimentos) cresceu 3,2% sobre o primeiro trimestre, mas segue 26,2% abaixo do segundo trimestre de 2013, quando atingiu seu nível mais alto. Esse componente do PIB está no mesmo nível de 11 anos atrás. "Os últimos cinco anos foram extraordinariamente desafiadores. A economia saiu de uma recessão longa e profunda a um ritmo muito lento e ainda opera com alta ociosidade."
Para a LCA Consultores, o PIB foi uma surpresa positiva, mas não altera o quadro de retomada lenta, atípica em termos históricos.
Dados elaborados pela consultoria a partir de informações do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da FGV, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que, desde o pico do PIB, de janeiro a março de 2014, 21 trimestres se passaram e a economia ainda não voltou àquele nível. Na recessão de 1989 a 1992, a economia voltou ao pico anterior em 17 trimestres. Após a queda de 1981 a 1983, a recuperação levou 15 trimestres.
Outro cálculo, do banco Santander, mostra que sob as condições atuais, o potencial de crescimento do país é de 0,7% ao ano. Para que esse ritmo supere 2% ao ano, a taxa de investimento precisaria atingir ao menos 19% do PIB - está em 15,9%. Ao mesmo tempo, o ganho anual da produtividade total dos fatores teria de alcançar pelo menos a média histórica de 0,4% ao ano, que já é baixa. Hoje, está em queda de 0,9%. "Apesar de não trivial, consideramos esta evolução factível", dizem os economistas Lucas Nobrega Augusto, Everton Gomes e Rodolfo Margato. Eles estimam que o potencial de crescimento da economia pode chegar a 2,2% no fim de 2022.
Fonte: Valor - Especial, por Ana Conceição e Anais Fernandes | de São Paulo, 30/08/2019

