A expansão de 0,4% do PIB no segundo trimestre não sinaliza que o Brasil deixou para trás o ritmo lento de recuperação observado nos últimos dois anos, na avaliação de Simão Silber, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA-USP). O terceiro trimestre deve ter mostrado dinâmica parecida à dos três meses encerrados em junho, e a redução dos juros e a liberação de recursos do FGTS devem dar algum alento à atividade nos últimos três meses do ano, afirma Silber, mas o impulso com origem no consumo seria mais um "voo de galinha".
"O consumo vem a reboque. Quando você está morrendo afogado num lago, não vai se salvar puxando seu próprio cabelo", diz o economista, para quem o motor do crescimento está na construção civil. Além de acelerar o programa de concessões e privatizações e fortalecer as agências reguladoras, o governo federal poderia fazer um "pente-fino" nas obras paradas e retomar as que poderiam ser concluídas mais rapidamente, o que teria impacto positivo sobre a geração de empregos, sugere Silber.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Valor: O PIB cresceu 0,4%, após recuo de 0,1% no primeiro trimestre. Isso sinaliza que a recuperação lenta ficou para trás?
Simão Silber: Ainda temos o terceiro trimestre, que não vai ser muito adequado. Pode ser um número muito modesto e a recuperação mais forte deve aparecer no último trimestre, porque tem algumas coisas que vão fazer efeito. Começa a se pagar agora uma parcela do 13º dos aposentados, tem a liberação de FGTS e PIS/Pasep. Isso deve injetar renda adicional, que deve ativar o consumo, e tem a sazonalidade do fim do ano. O terceiro trimestre, pelas simulações que fizemos, vai ser parecido com o número divulgado ontem.
Valor: Que fatores atrapalharam no terceiro trimestre?
Silber: Duas coisas contam contra: no setor externo as exportações em termos reais estão caindo, e as importações estão aumentando um pouco. O resultado líquido é negativo. E o ajuste de contas do governo, que está fazendo ginástica grande para conter gastos e tentar arrecadar o máximo, tem efeito negativo sobre a atividade.
Valor: Depois de duas quedas, o investimento voltou a crescer, com alta de 3,2% no segundo trimestre. A expansão parece o começo de uma trajetória consistente de recuperação?
Silber: Ainda não. Essa reação vem em cima de uma base menor. Aparenta ser coisa muito importante, mas não representa retomada. O IBGE ainda não separa o que veio da construção de máquinas e equipamentos. Não tenho cálculos, mas pode ser que isso seja máquinas e equipamentos, porque a construção está em queda; obras públicas não estão deslanchando. Ainda não saímos do buraco.
Valor: Mas a construção também voltou a crescer, com expansão de 1,9% no trimestre. Esse setor deve ajudar mais o PIB?
Silber: A construção deve ser positiva por várias razões. Talvez a principal seja a queda importante nos juros de financiamento para casa própria, que estão em 7,5% ao ano, nominal. Isso dá maior confiança, mas, em 12 meses, a construção ainda está caindo 0,9%. São cinco anos seguidos de queda. Essa alta de 1,9% vem de uma base muito fraca. Para voltar aos níveis de 2014, vai ter que crescer 2% durante três ou quatro anos.
Valor: Entre a última divulgação do PIB trimestral, no fim de maio, e a atual, o Banco Central voltou a cortar juros. Qual é o espaço para a queda?
Silber: Apesar da turbulência mais recente, que vem de três origens - Xi Jinping [presidente chinês], Brexit e Argentina, tem espaço pra baixar juros, porque todos os bancos centrais do mundo estão baixando juros e não faz sentido o Banco Central brasileiro não reduzir a Selic para 5% ao ano.
Valor: A queda dos juros, a aprovação da reforma da Previdência e a liberação de recursos do FGTS devem impulsionar com mais força o investimento e o consumo?
Silber: Sim, mas é um voo de galinha, "once and for all". O setor externo também não deve dar grande estímulo, o comércio mundial em termos reais está com crescimento zero neste momento. Nosso terceiro maior parceiro comercial, a Argentina, entrou em parafuso. O efeito mais importante, necessário para acelerar o crescimento, seria acelerar o programa de concessões e privatizações. Já que o governo não pode investir muito, quanto mais cedo você passar concessão de portos, estradas, hidrovias e aeroportos, melhor. E fazer uma ótima regulamentação, porque sem regulamentação isso não funciona direito. Quem vai investir em infraestrutura tem horizonte de 20, 30 anos. O governo federal também está com muita obra parada. Poderia fazer um pente-fino nos melhores projetos e retomá-los, porque isso gera muito emprego. A construção civil é porta de entrada do mercado de trabalho.
Valor: De onde viriam os recursos para retomar as obras paradas?
Silber: É dívida, isso não fere a regra de ouro. Se é para investimentos, tem ganhos de produtividade, gera empregos e contribui para o crescimento do PIB. Mas o grande componente não é esse, é tentar acelerar ao máximo o investimento do setor privado, é para isso que o governo tem que se acertar, e dar autonomia para agências reguladoras. O governo está interferindo politicamente nas agências e, enquanto isso acontecer, vamos ficar com crescimento baixo.
Valor: A construção civil seria a saída para ajudar a reduzir o número de 12,8 milhões de desempregados?
Silber: O ponto de partida inequivocamente é a construção. Tem algumas medidas que estão ocorrendo e devem ajudar um pouco, como a aprovação da simplificação burocrática [MP da Liberdade Econômica]. Vai ter uma pequena aceleração de crescimento no fim do ano e com isso deve vir um pouco mais de investimento. Mas o grande estímulo para emprego tem que ser privatização e concessão, porque o consumo vem a reboque. Quando você está morrendo afogado num lago, não vai se salvar puxando o próprio cabelo. O consumo por si só dificilmente se recupera porque o brasileiro está razoavelmente endividado. Ele precisa de aumento de renda, e aumento de renda vem com aumento de emprego.
Valor: A crise na área ambiental pode afetar a retomada do investimento?
Silber: Eu acho que ainda é muito cedo pra avaliar, mas o efeito líquido é negativo por uma razão simples. Não tem nada a ver com o problema ambiental, mas sim com a exploração política da barbeiragem que o governo fez. Na medida em que foi criada uma imagem externa de que estamos abandonando - e não estamos - a defesa do ambiente, cria-se um cenário propício para o aumento do protecionismo. A França, que já é um dos países mais protegidos do mundo na agricultura, disse que não vai assinar o acordo entre União Europeia e Mercosul porque estamos destruindo as florestas. Vamos ter que mostrar que isso não é verdadeiro.
Valor: Qual a expectativa de crescimento neste ano e no próximo?
Silber: Para esse ano, algo um pouco abaixo de 1%. Para o ano que vem, uns 2%.
Fonte: Valor - Brasil, por Arícia Martins | de São Paulo, 30/08/2019

