Mesmo tendo durado apenas dois trimestres até agora, a crise gerada pela pandemia da covid-19 é a mais severa já registrada para o setor de serviços, que abarca mais de 70% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), o valor adicionado dos serviços teve perda de 9,7% na recessão atual, maior tombo já observado em dez ciclos recessivos inteiros.
O quadro é ainda mais adverso no segmento “outros serviços”, que reúne atividades que demandam maior convívio social, como restaurantes e serviços prestados às famílias. O setor teve queda de quase 23% no primeiro semestre.

Os cálculos para a crise de agora foram feitos com base no Monitor do PIB da entidade, que tem como objetivo replicar o que seria o comportamento mês a mês do número oficial do IBGE, divulgado pelo órgão em bases trimestrais. O dado do segundo trimestre será publicado na terça.
Para ter uma ideia do tamanho do choque negativo provocado pelo novo coronavírus, nas duas recessões mais longas que o país já atravessou - que se estenderam ambas por 11 trimestres -, a retração dos serviços foi menor. De 1989 a 1992, os serviços recuaram 1,7%. Entre 2014 e 2016, a redução foi de 5,8%.
“Não é apenas pelos recordes de retrações que a recessão de 2020 difere das anteriormente vivenciadas no país”, observam os pesquisadores Juliana Trece, Claudio Considera e Elisa Andrade, autores da análise antecipada ao Valor. Enquanto as outras nove crises tiveram origem econômica - seja por recessões globais que atingiram o Brasil, seja por problemas domésticos -, agora, a economia não é protagonista, mas foi rapidamente afetada.
Nesse “novo normal”, que exigiu a adoção de medidas de isolamento para conter o avanço da covid-19, o setor de serviços foi atingido com mais força do que nas crises anteriores, especialmente nos ramos que dependem mais da interação social. Não por acaso, o segmento “outros serviços” - que agrega alojamento e alimentação, serviços prestados às famílias e empresas, serviços domésticos e educação e saúde privadas - caiu impressionantes 22,7% nos dois primeiros trimestres deste ano, recuo 3,5 vezes maior que o verificado na última recessão.
Esse também foi o desempenho mais negativo dos “outros serviços” em todas as recessões analisadas, tombo que explica grande parte da contração dos serviços no total. Excluindo-se essa categoria do PIB dos serviços, o setor teria diminuído 5,6% na crise atual - queda um pouco mais fraca que a observada na recessão de 2014 a 2016 -, destacam Juliana, Considera e Elisa.
O agregado “outros serviços” tem peso relevante: representa quase um quarto (24%) do valor adicionado da atividade dos serviços, e 18% do total da economia. É, ainda, bastante intensivo em mão de obra. Pelos dados das Contas Nacionais, 31% de todos os postos de trabalho na economia brasileira eram preenchidos pelo setor em 2017.
“Por isso uma queda tão forte nessa atividade preocupa. Ela emprega muita gente, e as pessoas que trabalham no setor ficam muito vulneráveis”, afirma Juliana. “Já começamos a ter um processo de flexibilização desses serviços, mas devemos demorar a ver uma melhora da atividade do setor”, avalia a economista, seja porque as pessoas têm medo de se contaminar, seja porque estão cortando gastos onde podem.
Refletindo as restrições à mobilidade e também o comportamento mais cauteloso dos consumidores, a atividade de alojamento e alimentação, em que estão turismo, bares e restaurantes, foi a que teve redução mais expressiva durante a crise atual, de 41,7%. Segundo mais atingido, o componente de saúde privada mostrou perda de 36,2% no período, explicada pelo adiamento de consultas eletivas e exames laboratoriais não emergenciais, aponta o Ibre/FGV. “Já houve alguma volta dessa atividade em junho, com o retorno de procedimentos clínicos, mas as consultas ainda estão sendo adiadas”, diz Juliana.
Pelo Monitor do PIB, a atividade total dos serviços cresceu 2,9% entre maio e junho, feitos os ajustes sazonais, mas ainda está 8,1% abaixo do nível pré-pandemia, de fevereiro. No ramo de “outros serviços”, a distância é maior ainda, de 21,4%. O setor avançou 2% na última medição ante o mês anterior, após sequência de três quedas.
“O fraco desempenho mensal dos ‘outros serviços’, mesmo com o início do processo de flexibilização, mostra que a recuperação da atividade deve ser lenta”, avaliam os três pesquisadores no estudo. Para Juliana, com exceção dos serviços prestados à empresas, que estão se adaptando melhor, os demais segmentos devem demorar bastante para recuperar o patamar pré-crise.
“A elevada insegurança com relação ao risco de contaminação, em conjunto com o mercado de trabalho deteriorado, indica que, enquanto não houver um marco para o fim da pandemia, como a vacina ou um medicamento eficaz, é difícil imaginar que a atividade de outros serviços volte ao patamar de antes da crise”, concluem Juliana, Considera e Elisa.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins - São Paulo, 28/08/2020

