Depois de anos em que a maior dor de cabeça das empresas do setor de construção foi a falta de mão de obra qualificada, o jogo começa a mudar: atualmente, a perspectiva de não ter demanda para esses projetos tomou a dianteira nas preocupações. Esse é um dos fatores que estão fazendo a confiança do setor despencar em 2014 e, com ela, o nível de atividade: para este ano, a perspectiva é que o PIB da construção se encerre em terreno negativo.

Segundo a Sondagem da Construção, pesquisa mensal da Fundação Getulio Vargas (FGV) com as perspectivas de empresários do setor, 36,3% indicaram, em agosto, a falta de demanda como um dos fatores que limitam o seu negócio. No ano passado, essa era uma preocupação de 21% deles, e vinha atrás da escassez de mão de obra (32,6%), que sempre liderou a lista de maiores entraves desde que a pesquisa começou a ser feita, em 2010. Na pesquisa atual, a mão de obra seguiu como preocupação para 34% dos entrevistados.

"Este mês foi a primeira vez que a demanda fraca assumiu o primeiro lugar, o que marca uma inflexão do cenário em 2014", disse Ana Maria Castelo, coordenadora de estudos da construção civil da FGV. Segundo a pesquisadora, a falta de demanda era um fator que desde 2012 preocupava as construtoras ligadas à infraestrutura. Agora, no entanto, isso começou a contaminar também as construtoras do mercado imobiliário, mais ligadas ao consumo das famílias. "Não estamos falando de um cenário de crise profunda, mas há mudanças muito claras no setor, que refletem uma atividade já mais enfraquecida", segundo Ana.

O Índice de Confiança da Construção (ICST) atingiu em agosto 104,4 pontos - 3,3% acima de julho, na série com ajuste sazonal, mas 8,4% menor que em agosto do ano passado. Juntos, julho e agosto foram os piores resultados desde que o índice começou a ser feito, em 2010, embora ainda se mantenham em terreno positivo: pontuações acima de 100 significam mais avaliações otimistas do que pessimistas.

"Há uma melhora da avaliação no mês, mas é difícil falar em tendência", diz Ana. "A instabilidade do humor está muito grande. O fato é que a construção está tendo em 2014 uma desaceleração muito forte da atividade."

Isso deve aparecer também no PIB do ano - na sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) divulga os resultados do segundo trimestre. "O PIB da construção vai ser fortemente negativo, com queda em torno dos 2%", disse Ana. O sinal negativo, no entanto, não necessariamente é um retrato fiel da realidade: "A realidade é algo muito mais próximo da estabilidade, que é o que apontam os dados de emprego e do varejo de material de construção."

A desaceleração no setor também se reflete, em certa medida, no avanço dos custos. O Índice Nacional de Custo da Construção Civil (INCC-M) teve alta de 0,19% em agosto, menor alta desde setembro de 2011. A taxa mensal do grupo de materiais, equipamentos e serviços foi de 0,15% no INCC-M de agosto. A variação na mão de obra, depois de variações altas de maio a junho (de 1% a 2%), afetadas pelos reajustes salariais em São Paulo, desacelerou para 0,23%.


Fonte: Valor, por Juliana Elias, 27/08/2014