
Os efeitos econômicos da pandemia fizeram o déficit em conta corrente acumulado em 12 meses recuar quase um ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB) em apenas dois meses. Dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC) mostram que o saldo negativo desse tipo de transação caiu de 2,97% do PIB em maio (US$ 49,5 bilhões) para 2% do PIB em julho (US$ 31,7 bilhões). A tendência até o fim do ano é que o déficit continue em queda, segundo economistas.
Principal fonte de financiamento do déficit em transações correntes, o investimento direto no país (IDP) também vem recuando, embora esse movimento não represente um risco para as contas externas. No acumulado de 12 meses, o IDP passou de 4,01% do PIB (US$ 65,2 bilhões) em junho para 3,94% em julho (US$ 62,6 bilhões), segundo informações da autoridade monetária. Apesar da queda, a quantia é mais do que suficiente para cobrir o rombo do déficit em conta corrente.
Em entrevista coletiva, o chefe do departamento de estatísticas do BC, Fernando Rocha, destacou que, entre maio e julho, as importações acumuladas em 12 meses recuaram US$ 8,9 bilhões. Esse movimento, de acordo com ele, foi responsável por metade da queda do déficit em conta corrente no período.
O saldo em conta corrente mede a diferença entre o que o país gasta e o que recebe nas transações internacionais relacionadas a comércio, rendas e transferências unilaterais. Um déficit menor ou um superávit nessas transações não são necessariamente, entretanto, notícias positivas, já que podem estar ligados a um desempenho mais fraco da economia, por exemplo.
Segundo Rocha, é difícil neste momento separar quanto do recuo das importações foi consequência da contração da atividade econômica no país e quanto foi consequência da desvalorização cambial.
A equipe econômica do Itaú Unibanco apresentou análise semelhante em relatório divulgado ontem. “A atividade econômica mais fraca e o câmbio mais depreciado, bem como o isolamento social, têm impactado as transações correntes”, afirmou o banco, destacando também a importância do “recuo expressivo nos déficits de viagens internacionais e de lucros e dividendos”. Nos cálculos da instituição, a média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada do saldo em conta corrente já entrou inclusive em terreno positivo. A medida passou “de perto de zero” em junho para um superávit de US$ 19 bilhões no mês passado.
Para agosto, o BC calcula superávit em conta corrente de US$ 2,2 bilhões. Caso o número se confirme, será o quinto mês consecutivo de resultado positivo em conta corrente, uma sequência que não acontece desde dezembro de 2006. Em julho, houve superávit de US$ 1,6 bilhão. Para o ano de 2020 como um todo, a autoridade monetária projeta déficit de 1% do PIB (US$ 13,9 bilhões).
A equipe do Itaú Unibanco também espera que o déficit continue em queda nos próximos meses. “Projetamos saldo em conta corrente perto de zero, ou até marginalmente positivo neste e nos próximos anos”, aponta a instituição.
Já o investimento direto no país mensal ficou em US$ 2,7 bilhões em julho deste ano, uma queda de quase 50% em relação aos US$ 5,3 bilhões do mesmo período de 2019. “Tal dinâmica já havia sido observada em divulgações anteriores, considerando que o contexto da crise global e do forte aumento de aversão a risco trazidos pela pandemia fizeram com que o IDP perdesse força”, diz a 4E Consultoria em relatório.
Para agosto, o BC calcula que o IDP ficará em US$ 1 bilhão. Caso o número se confirme, o indicador acumulado em 12 meses voltará a um patamar inferior a US$ 60 bilhões, de acordo com Rocha. A estimativa da autoridade monetária é que o investimento direto no país termine 2020 em 4% do PIB (US$ 55 bilhões). Por ser menos suscetível a fuga de capitais, esse tipo de investimento é considerado uma fonte de financiamento mais estável para as transações em conta corrente.
Por sua vez, os investimentos em carteira, apesar de terem completado dois meses seguidos de entrada líquida, seguem amplamente no vermelho no acumulado de 12 meses.
Em julho, as saídas somaram US$ 46,5 bilhões nessa base de comparação, contra US$ 11,1 bilhões no ano de 2019. Em agosto, até o dia 20, o saldo parcial do BC mostrava ingresso de US$ 1,457 bilhão, sendo US$ 1,344 bilhão em renda fixa e US$ 113 milhões em renda variável.
O BC realizou a revisão das estatísticas do balanço de pagamentos de 2019 e 2020, como costuma fazer em julho e novembro. O deficit em transações correntes do primeiro semestre foi revisado de US$ 9,7 bilhões para US$ 13,4 bilhões. Já o rombo de 2019 se elevou em US$ 1,5 bilhão, de US$ 49,5 bilhões (2,7% do PIB) para US$ 50,9 bilhões (2,8% do PIB).
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Estevão Taiar e Alex Ribeiro - São Paulo, 26/08/2020

