O ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy salienta as condições “quase asiáticas” que o país vive hoje e que podem surpreender as expectativas de recuperação. “Nunca tivemos uma taxa de juros tão baixa, câmbio tão competitivo e inflação tão modesta”, ressalta ele, “além dos termos de troca no comércio exterior e demanda por nossos produtos estarem em níveis muito bons.”
Levy vê, porém, o risco “de começarem a aparecer obstáculos para a expansão do crédito privado, principal canal de transmissão da política monetária”. Ele se apresenta sob a forma de cunha fiscal: uma nova CPMF, IOF e ISS sobre as operações de crédito. Essa ameaça vai resultar em restrições à oferta de crédito, tão necessária neste momento.
A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor.
Valor: Qual a sua avaliação sobre a recuperação e as dificuldades de crescimento?
Joaquim Levy: Há indicadores encorajadores, lá fora e aqui. Já estamos vendo a força da recuperação da indústria da construção, que rapidamente estabeleceu procedimentos para proteger seus trabalhadores e assim pode manter certo ritmo de trabalho, mesmo durante o pior da pandemia. De lá para cá as incorporadoras estão acelerando vendas, o crédito imobiliário se fortalecendo e toda a cadeia da construção civil, inclusive a siderurgia e a indústria do cimento, está reagindo. Infelizmente os riscos de contágio do virus continuam altos e o setor de serviços ainda se ressente. Mas é um alívio ver segmentos do varejo já alcançarem uma recuperação quase completa.
Valor: Na sua visão, então, a recuperação excede as expectativas?
Levy: Exato, e não é uma grande surpresa, porque ela é impulsionada por fatores transversais, que tem a ver com a natureza da recessão e das condições macroeconômicas, matizados pelo que comentei em relação aos serviços. A situação hoje é diferente da de 2016, quando a economia tinha que corrigir o grande desequilíbrio acumulado de 2011 a 2014. Agora houve basicamente uma suspensão de atividades. Escrevi no Valor em março que o mais importante nesse caso é evitar que a inadimplência crie um dominó que leve ao fechamento de firmas e a disseminação de problemas difíceis de reverter.
Valor: E evitou-se, não?
Levy: Sim, em parte pela ação do governo usando instrumentos clássicos para garantir a liquidez e a solvência das empresas e famílias. O crédito foi fundamental para as empresas, mesmo com possível demora para chegar em alguns lugares, e o “coronavoucher” foi fundamental para as pessoas. Assim, se a confiança do consumidor for mantida, há chance de a economia reagir com rapidez quando a pandemia for subjugada. Até porque há um conjunto de condições macroeconômicas favoráveis à retomada e, também, para vencermos a parte mais difícil que será continuar crescendo depois de atingirmos os níveis de 2019.
Valor: O que faz as condições macro serem tão favoráveis?
Levy: Nunca experimentamos uma situação de juros tão baixos, câmbio tão competitivo e inflação tão modesta. Além dos termos de troca no comércio exterior e demanda por nossos produtos estarem em níveis muito bons. Essas condições quase “asiáticas” podem dar grande fôlego à economia ao longo do tempo, inclusive permitindo nos posicionarmos como supridores internacionais de alguns produtos industriais agora que as multinacionais querem diversificar suas cadeias de fornecimento.
Valor: Mas os juros estão baixos já a algum tempo e não resultaram em impulso ao crescimento...
Levy: Sabemos que a política monetária funciona com certa defasagem. Ela precisa de alguns trimestres para ter um efeito significativo. Ela é uma flor que tem que ser bem cuidada para desabrochar e ter seus efeitos sentidos mais para frente. Para isso é preciso que os canais de transmissão da política monetária estejam desimpedidos. Aí reside um risco importante na situação atual, que vai além do risco fiscal que o Banco Central tem indicado na sua comunicação.
Valor: Quais são os riscos?
Levy: A principal preocupação é começarem a aparecer obstáculos para a expansão do crédito privado, principal canal de transmissão da política monetária. Principalmente em um momento em que os bancos querem emprestar mas tem que ser judiciosos com o nível de risco que podem incorrer. O governo pode ajudar a controlar esse risco oferecendo programas como o Pronampe, mas aqui estou falando de algo mais fundamental.
Valor: A nova CPMF, por exemplo?
Levy: Trata-se de como aproveitar a política monetária para criar novas oportunidades de empréstimos e de investimento para empresas e pessoas, inclusive usando as novas ferramentas digitais. Se agora que o crédito pode transformar a economia, ele for onerado com uma série de impostos que criem uma grande cunha fiscal, fica mais difícil os bancos emprestarem. Então, quando a taxa de juros está em 2%, vier uma CPMF de 0,4 % (0,2% em cada ponta), o IOF nos empréstimos voltar e o ISS sobre operações bancárias aumentar, o crédito tenderá a ficar mais caro e escasso. Seria lamentável perdermos a chance oferecida por essa delicada flor, dificultando a transmissão do impulso monetário até as empresas e pessoas físicas, quando o BC está até tomando alguns riscos para poder criar esse ambiente pró-crescimento.
Valor: Mas na sua época como secretário do Tesouro havia a CPMF...
Levy: De fato, herdamos a CPMF lá atrás e, antes do mundo digital, ela até tinha algumas vantagens na simplicidade da sua cobrança. Hoje essas vantagens sumiram porque a cobrança do IVA ou da CBS será digital, por nota fiscal eletrônica e será abrangente, cobrindo quase todas as atividades e sem interferir na eficiência da economia. A CPMF atrapalha a eficiência por penalizar as cadeias de produção longas e, portanto, a concorrência e a produtividade da economia. Mas ela é pior ainda quando cobrada sobre movimentações financeiras associadas ao investimento, e não ao consumo.
Valor: A “conta investimento” não resolvia esse problema?
Levy: Sim. Quando estava no Tesouro, em 2004, criamos a “conta investimento” que evitava esse problema, reduzindo o impacto na intermediação financeira. Agora, quando a política monetária poderia facilitar a realocação da poupança em ativos privados, como crédito, ações, financiamento dos imóveis e em tantas formas de otimizar e proteger o retorno da poupança e irrigar as empresas para que elas vençam a crise e cresçam, seria uma pena a CPMF bloquear esse movimento.
Valor: Mas o rombo fiscal não é mais sério do que ruídos na transmissão da política monetária?
Levy: A questão fiscal é preocupante também. Nesse assunto, o principal é não agirmos com precipitação criando novas despesas, e não falo só do funcionalismo, ou contando apenas com novos impostos. A covid não está vencida, mas as pesquisas de emprego [PNAD e Caged] indicam que numerosos trabalhadores que haviam sido afastados já voltam a trabalhar enquanto o teletrabalho parece estável, e a dinâmica de admissões e desligamentos mostra o setor formal reagindo. Além disso, a maior parte da queda do emprego foi no setor informal, que tende a ser mais flexível. Isso é importante porque ele pode voltar rápido quando o setor de serviços reabrir, mesmo considerando o possível impacto no emprego de certas mudanças tecnológicas aceleradas pela pandemia.
Valor: Então, o que fazer?
Levy: Temos que desenhar uma saída gradual que não deixe ninguém para trás, mas tampouco deixe um legado fiscal impagável. Temos que observar a força da retomada, sabendo que seu fôlego depende também da dívida pública não ficar muito grande. Se a dívida continuar acelerando, só o Banco Central transferir seus lucros para o Tesouro, ou o governo vender ativos para pagar despesas correntes, não vai criar confiança. Para o país voltar a crescer, criar empregos sustentáveis, o foco tem de ser, como tem alertado o Banco Central, dar espaço e fazer as escolhas necessárias para esse experimento único da atual política monetária não só florescer, mas dar os seus frutos.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Claudia Safatle - Brasília, 25/08/2020

