Enquanto a perspectiva para o crédito a pessoa física é de recuperação ao longo do ano, os empréstimos para pessoa jurídica voltaram a cair em julho, num sinal de que a retomada deve ser mais lenta que o esperado.
As concessões de crédito total recuaram 12,6% em julho ante o mês anterior, puxadas pela queda de 23,3% dos empréstimos para pessoa jurídica. Apesar de haver um efeito sazonal, principalmente em função do fim do plano safra em junho, a queda registrada no mês passado foi maior que a verificada no ano passado. Em julho de 2016, houve recuo de 11,6% dos empréstimos totais em relação ao mês anterior.
O crédito para pessoa jurídica continua fraco, por conta do processo de desalavancagem financeira das empresas, menor demanda para investimentos e bancos cautelosos em ampliar os empréstimos para esse segmento, que ainda apresenta taxa de inadimplência elevada, diz João Moraes, economista da Tendências. "Os empréstimos para empresas estão ensaiando uma estabilização, mas ainda apresentam volatilidade."
Em julho, a desaceleração foi maior nos empréstimos para empresas com recursos direcionados, que caíram 35,5%, puxados pela queda nas concessões de crédito rural. No crédito livre, a queda nas concessões foi de 21,9% no mês passado, com destaque para as linhas que tinham apresentado avanço em junho, como desconto de duplicatas e recebíveis e capital de giro.
O saldo da carteira de crédito pessoa jurídica apresentou queda de 1,4% em julho ante o mês anterior, puxada pela retração de 2,1% da carteira com recursos livres.
A MCM Consultoria prevê queda de 3,8% no saldo do crédito livre para pessoa jurídica no ano, enquanto a carteira de pessoa física deve crescer 3,7%. "Nossa projeção de crescimento do crédito total no ano é de 1,6%", afirma Bernardo Dutra, economista da MCM.
Para o economista da Tendências, a perspectiva é de estabilização da queda das concessões para pessoa jurídica no segundo semestre e avanço de 3% em termos reais dos empréstimos para pessoas físicas. Apesar do recuo de 3,7% em julho ante junho, as concessões para pessoa física crescem 7,6% no ano.
A retomada das operações para pessoa física reflete uma melhora do mercado de trabalho, com crescimento da criação de emprego, que já tem efeito sobre o consumo. "Vemos uma recuperação das vendas no varejo e também do financiamento de veículos, que cresceu 1,8% em julho", diz Moraes.
Ele lembra que as concessões para pessoa jurídica são mais sensíveis ao cenário macroeconômico. Em julho, o aumento da incerteza no cenário político diante da votação da abertura do processo contra o presidente Michel Temer pode ter contribuído para o recuo dos empréstimos nesse segmento.
O Goldman Sachs destaca, em relatório, que o aumento da incerteza política poder atenuar a demanda de crédito, tanto das famílias quanto das empresas, podendo afetar as decisões de investimentos. Além disso, do lado da oferta, os bancos poderiam ficar mais seletivos e apertar o crédito. Da mesma forma, o ambiente de incerteza e a expectativa de queda maior da taxa Selic podem ter levado as pessoas físicas a adiarem a contratação do crédito imobiliário, que recuou 3,5% em julho ante junho, avalia Moraes, da Tendências
Apesar de a taxa de inadimplência ter ficado estável em julho ante o mês anterior, houve aumento no spread bancário - diferença entre a taxa que os bancos pagam para captar e a que eles cobram do investidor. A alta foi puxada, segundo Moraes, pelo aumento da taxa média de juros do crédito rotativo do cartão, que subiu tanto na pessoa física quanto na jurídica.
A taxa do crédito rotativo para pessoa física subiu de 380,8% em junho para 399,1% em julho. Essa alta foi impulsionada pelo aumento das taxas no crédito rotativo não regular, que engloba os clientes que não efetuaram o pagamento da fatura ou pagaram menos que o mínimo estabelecido pelo bancos.
Desde abril, os clientes não podem ficar mais de 30 dias no crédito rotativo, tendo que quitar, após esse período, a dívida à vista ou migrar para o crédito parcelado. Houve uma alta da taxa de juros também no crédito parcelado, que passou de 157,9% em junho para 159,5% em julho.
Fonte: Valor - Finanças, por Silvia Rosa, 25/08/2017

