Comércio e indústria tiveram no mês de julho seus melhores desempenhos no ano. Pelo menos é o que indicam as movimentações das notas fiscais eletrônicas levantadas pela Receita.

Em boletim antecipado ao Valor, o fisco mostra que as vendas da indústria tiveram alta de 7,5% ante igual período do ano passado. Já as do comércio entre empresas ou das empresas produtoras diretamente para o cliente final cresceram 16,1% ante julho de 2019 nos dados de média diária. É a primeira vez que esse boletim traz uma abertura setorial.

No total, o volume financeiro movimentado nas notas fiscais eletrônicas subiu 12,6% na média diária de julho ante o mesmo mês de 2019, totalizando R$ 25,8 bilhões, o pico do ano. O secretário especial da Receita, José Tostes, disse ao Valor que, embora não capture toda a realidade da economia (serviços e varejo presencial estão fora da conta), os dados indicam uma atividade econômica se recuperando depois da forte queda em abril.

“De certo modo, [o boletim] demonstra recuperação da economia a partir da queda brutal que houve em abril. E reflete o resultado de programas de crédito, do auxílio emergencial, já que parte significativa foi para o consumo”, apontou.

Tostes explica que a diferença entre a forte alta mostrada nos dados da nota fiscal eletrônica e a queda de mais de 17% mostrada nos números gerais da arrecadação de julho, divulgados na última quinta-feira, refletem, além do universo menor de comparação, basicamente dois fatores: o diferimento (adiamento) no recolhimento de tributos (uma parte ainda está valendo para julho) e a forte compensação de tributos que reduziu o ingresso de Cofins no mês passado.

Os números levantados pela Receita Federal com as notas fiscais eletrônicas também têm uma segregação por região. Por essa ótica, o melhor desempenho foi no Norte do país, com alta de 13,2% em julho, ante igual período do ano passado.

Há também informações sobre o comércio eletrônico, que cresceu fortemente durante esse período de pandemia. Pelo boletim, o desempenho em julho manteve o pico do ano, alcançado no mês anterior, com um volume de R$ 0,67 bilhão de vendas na média diária.

A representatividade desse segmento ainda é pequena frente a todo volume movimentado na economia brasileira, mas o crescimento na comparação com o ano passado chama atenção: 55,5% em julho em relação ao mesmo período de 2019, com o número de transações mais que dobrando no período.

Tostes avalia que os números gerais do boletim refletem uma economia em recuperação, mas ainda não é taxativo sobre a sustentabilidade desse processo. “Se é sustentável, vai depender do comportamento da economia e dos agentes econômicos. O mais importante é que fundo do poço começou a ser revertido e o desafio é que seja sustentável daqui para a frente”, afirmou o secretário. “O que se observa é uma série de outras informações complementares, sobre desempenho de setores, reaquecimento de negócios, que nos sinalizam que recuperação pode ser sustentável.”

Embora avalie que os dados refletem o impacto das medidas de combate à crise adotadas pelo governo, como o auxílio emergencial e o programa de manutenção do emprego, com redução de jornada e salário, o secretário não arrisca dizer quanto. “Não fizemos ainda estudo para quantificar e dimensionar o impacto dos programas de auxílio emergencial, teremos que fazer, mas não tenho dúvidas de que impacto existe”, salientou.

Sobre a possibilidade de o governo fazer um novo diferimento de tributos, o chefe da Receita não quis se comprometer. Disse que vai primeiramente avaliar o desempenho de agosto, que tem a maior parte da arrecadação concentrada neste fim de mês, para então considerar a possibilidade de esse programa ser retomado pelo ministério.

Ele também não se arriscou a dizer quanto do total de tributos adiado deve retornar efetivamente ao caixa do governo, já que isso vai depender do nível de inadimplência dessas companhias com o fisco.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Fabio Graner e Lu Aiko Otta - Brasília, 24/08/2020