O salto da inflação na passagem de maio a junho, como resultado do desabastecimento provocado pela greve dos caminhoneiros, prejudicou o ganho real nas negociações salariais entre patrões e empregados em julho.
Com a atividade fraca e a perspectiva de aceleração do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) adiante, a expectativa é de que os reajustes acima da inflação se tornem ainda menos frequentes nos próximos meses.
A proporção de correções salariais abaixo do INPC passou de 4,8% em junho para 37,1% em julho, segundo o boletim Salariômetro da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). A taxa de inflação de referência para os reajustes (o INPC acumulado em 12 meses até o mês anterior ao de fechamento dos acordos) praticamente dobrou, saltando de 1,8% para 3,5% na passagem de um mês ao outro.
Apesar desse avanço dos reajustes abaixo da inflação, a maior parte das negociações (53,6%) ainda resultou em ganho real para os trabalhadores no sétimo mês do ano, enquanto 9,3% dos reajustes vieram em linha com a variação acumulada dos preços.
Em junho, essas proporções foram de 91,7% e 3,6%, respectivamente. No acumulado de 12 meses até julho, os reajustes acima da inflação medida pelo INPC chegaram a 81,9% do total.
"Em junho, com a inflação de 1,8%, o reajuste mediano foi 3%, com um baita aumento real de 1,2%", observa Hélio Zylberstajn, coordenador do boletim. "Em julho, o reajuste mediano concedido foi a 3,5%, ou seja, as empresas deram mais aumento do que há um mês atrás, mas não conseguiram dar ganho real", acrescenta.
Segundo o professor da USP, a proporção de reajustes abaixo ou em linha com a inflação deve crescer daqui para a frente, enquanto as correções com ganho real vão perder espaço. Isso porque o INPC acumulado em 12 meses deve continuar em alta nas próximas datas-base, chegando a mais de 4% no fim do ano, conforme as projeções colhidas pelo boletim Focus do Banco Central.
"Uma inflação de 4%, com a atividade econômica como nós temos neste momento, não vai dar muito espaço para aumento real", afirma Zylberstajn. "A proporção de reajustes abaixo do INPC talvez até cresça", diz. Uma boa notícia de julho é que os impasses gerados pela reforma trabalhista, que reduziram fortemente o número de negociações coletivas fechadas na primeira metade do ano, parecem estar gradualmente se dissipando, destaca o especialista.
No acumulado de janeiro a julho, foram fechados 11.587 acordos e convenções coletivas, ante 17.292 em igual intervalo de 2017, numa redução de 33%. No mês anterior, essa retração estava em 34% e, antes disso, em 40%.
De acordo com Zylberstajn, eram três os principais impasses que levaram à queda no número de acordos fechados desde o início do ano. O primeiro deles era a baixa inflação, que levava a reajustes nominais reduzidos, o que provocou resistência entre os trabalhadores.
O segundo, a questão da contribuição sindical - pela nova lei, o desconto passou a depender de autorização prévia e expressa dos empregados, deixando de ser obrigatório o desconto automático de um dia de salário em folha. Por fim, os sindicatos patronais vinham tentado retirar das convenções algumas cláusulas que garantiam direitos aos trabalhadores.
"Patrões e empregados estão encontrando soluções, principalmente para a questão da contribuição sindical, conseguindo contornar o fim da compulsioriedade", diz. Entre essas opções, está a adoção da contribuição negocial, autorizada pelos trabalhadores mediante decisão em assembleia. Mas, além dessa alternativa, estão surgindo outras soluções criativas, acrescenta.
A mediana dos pisos negociados em julho de 2018 foi de R$ 1.207, valor 26,5% maior que o salário mínimo, de R$ 954. Nas convenções coletivas, o piso mediano foi R$ 1.228, e nos acordos coletivos foi R$ 1.170. Por unidades da federação, os maiores pisos medianos são os de São Paulo (R$ 1.300), Paraná (R$ 1.269) e Santa Catarina (R$ 1.252). Já os menores são os do Amapá, de R$ 980, e do Rio Grande do Norte, de R$ 986 em 12 meses até julho.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Thais Carrança, 22/08/2018

