A deterioração da indústria brasileira nos últimos anos pode ter sido menos intensa, se forem consideradas outras métricas para o desempenho de dois setores que caminharam na contramão da crise: extrativo mineral e papel e celulose. Incluindo na Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIMPF) índices alternativos para esses segmentos, a Tendências Consultoria estima que a produção industrial estaria, ao fim de 2016, em nível 3,6% inferior ao de 2006. Pela medição oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o tombo foi maior, de 7%.
Menos afetadas pelo enfraquecimento da demanda doméstica e com elevada competitividade internacional, as indústrias extrativa e de papel e celulose têm contribuído positivamente com a produção. Na avaliação da Tendências, essa ajuda pode ter sido ainda maior do que mostram as estatísticas oficiais, que, segundo a consultoria, subestimam a atividade de setores que estejam passando por um ciclo de investimentos.
Esse é o caso dos dois segmentos contemplados na análise. Com peso de 11% na indústria total, o setor extrativo mineral foi impulsionado nos últimos seis anos pela maturação de investimentos de cerca de 25 novas plataformas de petróleo, de acordo com a Tendências. A Vale também expandiu sua capacidade produtiva no período, com a entrada em operação dos projetos Conceição Itabiritos e Vargem Grande Itabiritos, em Minas. No fim de 2016, foi inaugurado o S11D, projeto de minério da empresa em Canaã dos Carajás (PA).
No setor de papel e celulose, cinco grandes unidades produtivas entraram em operação entre 2012 e 2016, aponta o economista Felipe Beraldi, responsável pelo levantamento. Como existe uma defasagem na incorporação de novas unidades na pesquisa do IBGE, a pesquisa pode ter subestimado a produção dos dois setores no período analisado, diz Beraldi.
Para testar a consistência da PIM, o economista construiu dois índices alternativos a partir de estatísticas setoriais. Para o setor extrativo, foram usados dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) e companhias do ramo. Já o índice de papel e celulose foi obtido a partir de números da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), entidade que reúne empresas do setor.
Enquanto, pela PIM, a produção do setor extrativo cresceu, em média, 4,9% ao ano entre 2010 e 2012, a alta foi de 9,2% ao ano no indicador da Tendências. No triênio seguinte, a produção ficou praticamente estável na pesquisa oficial do IBGE, com expansão anual de apenas 0,1%. Já pela medição alternativa, houve avanço médio de 2,7%.
Na indústria de papel e celulose, que cresceu 0,7% ao ano, em média, de 2009 a 2016, de acordo com a pesquisa do IBGE, o avanço anual foi de 2,4% pelo índice construído com dados do Ibá. Assim, nos cálculos de Beraldi, a produção do setor estaria subestimada em 15% em relação a 2008, comparando o índice construído pela Tendências com os dados oficiais. Para o setor extrativo, a discrepância chega a 21,8% na comparação com 2009.
"A retração da indústria pode não ter sido tão aguda quanto mostram as estatísticas oficiais e, possivelmente, teríamos uma recuperação mais acelerada no período recente", dado que os dois setores continuam com bom desempenho este ano, afirma Beraldi. De janeiro a junho, a atividade industrial nos setores extrativo e de papel e celulose cresceu 6% e 2,3%, respectivamente.
Segundo André Macedo, gerente da coordenação de indústria do IBGE, a alta mais robusta da indústria extrativa é explicada principalmente pela base de comparação fraca. No primeiro semestre do ano passado, lembra ele, a extração de minério foi afetada pelo desastre da Samarco, em Mariana, e recuou 13,8%. Já o ramo de papel e celulose é beneficiado pelo mercado externo, para onde é destinada boa parte da produção, diz.
Sobre a divergência entre os dados da PIM-PF e os indicadores com base em dados setoriais, Macedo afirma que a pesquisa não é "um censo da indústria" - ou seja, não é possível captar a variação de toda a indústria, mas sim das principais unidades produtivas, produtos e atividades. Quando surgem novas unidades, o instituto entra em contato com a empresa responsável, que assume o compromisso de enviar as informações. "Temos uma defasagem maior do que as associações setoriais", reconhece.
Com capacidade anual de 90 milhões de toneladas de minério, o S11D, da Vale, por exemplo, ainda não foi incluído na PIM. "Estamos em contato com a Vale e buscando as informações retroativamente", diz Macedo. Assim, quando o novo projeto entrar na pesquisa, o desempenho passado do setor extrativo deve ser revisto.
O gerente do IBGE acrescenta que, ao contrário dos indicadores setoriais, a pesquisa de produção do IBGE precisa que a amostra de comparação seja a mesma do mês anterior. Por isso, quando uma nova unidade produtiva é adicionada ao levantamento, o efeito na produção leva dois meses para ser percebido.
Rodrigo Nishida, economista da LCA Consultores, observa que a estrutura de base fixa utilizada na PIM foi feita com base na Pesquisa Industrial Anual (PIA) de 2010. "O ideal é que a estrutura de base fixa fosse mais atualizada ou que a pesquisa fosse feita com uma base móvel, mas isso seria mais trabalhoso e teria que ser feito com muita cautela", disse.
Segundo Nishida, a PIM-PF é uma pesquisa boa e respeitada, mas, por ser um "retrato", não representa a totalidade do setor industrial brasileiro. "Mas não é possível colocar toda a culpa no IBGE, que depende dos informantes para ter uma pesquisa confiável."
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Arícia Martins, 21/08/2017

