A desconfiança dos investidores com a corrida presidencial tem pesado sobre o mercado de câmbio. O real amarga um dos piores desempenhos do ano, em comparação com as principais moedas globais. E um grande alívio não está no horizonte de curto prazo. Mesmo quando a tensão no exterior dá trégua, a incerteza local freia uma recuperação mais ampla.
O real já perdeu 15,4% no acumulado do ano até a última sexta-feira, quando o dólar fechou em R$ 3,9146. A variação só não foi maior porque sinais de aproximação entre Estados Unidos e China aliviaram a pressão global sobre os ativos de risco: na máxima, o dólar tocou R$ 3,9528. Ainda assim, a divisa brasileira ocupa a quarta pior colocação entre seus pares em 2018.
Em situação mais difícil que o real estão moedas de economias que têm fundamentos muito mais fracos, seja por inflação alta, déficit em conta corrente ou rombo nas contas públicas. O peso argentino recua 38,1%, a lira turca perde 37,1% e o rand sul-africano cede 15,7%. O comportamento do mercado brasileiro reflete, além do vai-vém externo, a sensibilidade aos riscos políticos. Num sinal da pressão aos ativos daqui, o Ibovespa passou novamente ao campo negativo no mês e no ano. O índice fechou em baixa de 1,03%, aos 76.028 pontos, na sexta-feira, depois de retroceder à mínima já um nível abaixo (75.633 pontos). No mês, a queda já é de 4,03% e, no ano, o Ibovespa perde 0,49%. Nos juros futuros, a taxa do DI para janeiro de 2025 gira em 11,61%, de 10,250% no começo do ano.
As últimas pesquisas de intenção de votos mostram que Geraldo Alckmin (PSDB), visto como candidato mais alinhado com as pautas econômicas defendidas no mercado, enfrenta dificuldades para ganhar apoio popular na disputa presidencial. E se já não bastasse o desânimo com o desempenho do tucano, a chapa do PT avançou entre os eleitores na última pesquisa da XP/Ipespe. "Existe o medo do Fernando Haddad (PT) subir e ir para o segundo turno e os investidores estão querendo se proteger", diz Paulo Petrassi, sócio e gestor da Leme Investimentos.
Em relatório, a equipe de pesquisa econômica do Citi aponta que a maior parte do prêmio de risco é adicionada no período pré-eleição. E os catalisadores de curto prazo jogam contra o real: as próprias incertezas com a eleição, deterioração dos termos de troca de commodities e o carry trade baixo, com o Banco Central hesitante em aumentar juros. Após o pleito, entretanto, o real deve se fortalecer "quase que independentemente do resultado provável". O Citi enxerga potencial de ganhos do real nos próximos 12 meses e coloca como cenário mais provável a eleição de Alckmin.
A alta do dólar, por outro lado, abre espaço para busca de ações de companhias que detêm receitas na moeda americana. Suzano acumula, de longe, a maior alta do ano no Ibovespa, com ganho de 136,7%.
A Capital Economics tira algumas lições da eleição do México, que também afetou os ativos do par emergente. A vitória de um candidato de esquerda "não é necessariamente um desastre para os mercados financeiros". O peso do México e o mercado de ações se recuperaram após a vitória de Amlo. "No entanto, os balanços do Brasil - particularmente as finanças públicas - estão em situação muito pior do que a do México. As reformas são mais urgentes e a probabilidade de uma reação do mercado é maior."
Fonte: Valor - Finanças, por Lucas Hirata, Juliana Machado, Daniela Meibak e Victor Aguiar, 20/08/2018

