Com a queda da inflação e dos juros, além da liberação de recursos do FGTS, as vendas do varejo restrito (exclui automóveis e materiais de construção) surpreenderam em junho e cresceram 1,2% frente a maio, na série com ajuste sazonal. Foi o terceiro mês seguido de aumento, o que não ocorria desde 2014.

O resultado ficou acima da estimativa mais otimista do Valor Data, apurada junto a 22 consultorias e instituições financeiras, que apontava, em média, alta de 0,42%. O intervalo dessas projeções variava de queda de 0,5% a aumento de 1,1%. Já o dado de maio foi revisado, de queda de 0,1% para alta de 0,2%, assim como os de março (-1,2% para -1,1%) e abril (0,9% para 1,1%).

O número de junho reforçou a expectativa de um segundo semestre favorável para o setor, beneficiado pela desalavancagem das famílias e efeito sazonal do mercado de trabalho. Parte dos economistas revisou para melhor as projeções para o crescimento das vendas neste ano, atualmente acima de 1% na maioria das consultorias. 

Em relação a junho do ano passado, o varejo teve expansão de 3%, o ritmo mais intenso verificado desde maio de 2014. Com o resultado, o setor apresentou expansão de 2,5% no segundo trimestre, frente ao mesmo período de 2016, interrompendo uma série de nove trimestres consecutivos de taxas negativas.

No varejo ampliado, que inclui as vendas de veículos e de materiais de construção, o volume de vendas teve crescimento de 2,5% em junho, na comparação com maio deste ano, descontados os efeitos sazonais. Foi o maior avanço desde janeiro, quando cresceu 3,2% em meio à mudança de metodologia da pesquisa mensal.

Segundo especialistas, tão positivo quanto o ritmo de crescimento, foi a disseminação de taxas positivas da Pesquisa Mensal do Comércio, divulgada pelo IBGE. Dos oito setores acompanhado pelo instituto, seis cresceram de maio para junho.

O principal destaque foi o desempenho de móveis e eletrodomésticos, com incremento de 2,2% no volume comercializado, frente a maio, mas também cresceram tecidos, vestuário e calçados (5,4%); outros artigos de uso pessoal e doméstico (2,7%); artigos farmacêuticos (1,5%); e ainda veículos e motos (3,8%).

"O varejo reage à liberação de recursos das contas inativas do FGTS, à inflação menor, ao ganho de renda real e à base de comparação baixa. Eletrodomésticos e móveis beneficiam-se mais, porque tinham demanda represada e exigiam mais do orçamento das famílias", disse Isabella Nunes, gerente de serviços e comércio do IBGE.

Para economistas, o crescimento do volume de vendas reforça um cenário de recuperação para o comércio no segundo semestre deste ano. Alejandro Padrón, economista da 4E Consultoria, calcula que as vendas do varejo  restrito crescerão 0,4% na segunda metade do ano em relação à primeira metade. Se confirmado, o resultado interromperá uma sequência de cinco quedas seguidas do comércio em relação ao semestre anterior. "Tudo indica que vamos ter uma quebra dessa sequência negativa", disse Padrón. 

O resultado melhor que o esperado do primeiro semestre, e um cenário mais positivo para o segundo, provocou revisões de projeções no mercado. A consultoria LCA passou a prever alta de 1% do varejo restrito em 2017, ante previsão anterior de 0,5%. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) mudou a projeção de alta do setor neste ano de 1,2% para 1,4%.

Paulo Neves, economista da LCA, explica que essa retomada do comércio virá tanto de setores mais dependentes do crédito - como veículos e motos - quanto de outros menos sensíveis. Para ele, a liberação de recursos do FGTS ajudou as famílias a se desalavancarem, o que abre espaço para que voltem a consumir e a se financiar.

Para Fabio Bentes, economista da CNC, uma possível melhora do nível do emprego no segundo semestre deve sustentar a gradual recuperação do varejo, compensando o fim do prazo de saques das contas inativas do FGTS.

A CNC estima que, dos aproximados R$ 44 bilhões em saques do FGTS, 40% - ou cerca de R$ 20 bilhões - teriam sido direcionados ao comércio.


Fonte: Valor - Macroeconomia, por Bruno Villas Bôas e Estevão Taiar, 16/08/2017