
Setor mais afetado pelo isolamento social, os serviços cresceram 5% em junho, na comparação com maio, mas ainda estão longe do nível pré-pandemia, informou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Após a alta, o volume de serviços continuou com perdas maiores que o comércio, para onde as famílias reorientaram seus gastos, e que a indústria. O resultado positivo de junho foi o primeiro na comparação com o mês anterior após quatro quedas, o que também inclui fevereiro, antes da pandemia.
O avanço de junho, mostrou o IBGE, foi pequeno diante do tamanho perdas provocadas pela fase mais aguda da crise sanitária. Entre março e junho, o setor ainda acumulou queda de 14,5%. Na comparação com junho do ano passado, a retração foi de 12,1%. O acumulado do primeiro semestre é de queda de 8,3%, e, em 12 meses, de 3,3%.
Segundo analistas, o resultado dos serviços ficou dentro do esperado. A falta de uma reação mais forte indica que o setor não deve retomar o patamar pré-pandemia até o fim de 2020. A retomada em serviços, dizem os especialistas, tende a ser mais lenta que a da indústria, menos afetada pelo isolamento, e que a do comércio, em parte adaptado ao varejo on-line.
“Para serviços em geral, a recuperação a patamares pré-pandemia vai ficar para o início de 2022”, afirma o economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes. A entidade calcula que o nível de geração de receita do setor ainda está 59% abaixo do verificado antes da epidemia. Com o resultado de junho, a CNC revisou a queda do setor no ano de 5,9% para 5,7%, o que seria a pior taxa anual da série histórica do IBGE. Até então, o maior recuo aconteceu em 2016 (-5,0%).
Os economistas Carlos Lopes, do Banco BV, e Rafael Leão, da consultoria Parallaxis, observam que a recuperação da atividade nos serviços foi a última a começar entre os grandes setores da economia e seguirá “gradual e heterogênea”. Leão aponta diferenças entre o comportamento dos segmentos e entre as regiões do país, na medida em que a pandemia avança com ritmo próprio em cada Estado.
“Podemos dividir o efeito dessa crise [para os serviços] em três ciclos. O primeiro, de queda abrupta, o segundo, de recuperação parcial, e agora, em que a retomada será mais lenta e heterogênea”, diz Leão. Muitos serviços, em especial às famílias - turismo, restaurante, salões de beleza, academias - continuam a exigir nível de exposição das pessoas incompatível com o coronavírus, argumenta.
Analista da XP investimentos, Lisandra Barbero diz que o conjunto de informações disponíveis até agora, dos serviços, comércio e indústria, reforça a expectativa de queda em torno de 10% no PIB, no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2019. Na comparação com o primeiro trimestre, a queda prevista é de 8%. No cenário da XP, o PIB do terceiro trimestre deve avançar 5,4% na margem e, no quarto trimestre, subir 1,7%, fechando o ano em 4,8% no ano.
As cinco atividades dos serviços investigadas pelo IBGE avançaram em junho ante maio, mas nenhuma o suficiente para recompor a retração na pandemia. As maiores influências positivas foram transportes (6,9%) e serviços de informação e comunicação (3,3%), que têm os maiores pesos no índice, 30% e 37% respectivamente.
Os serviços prestados às famílias tiveram o melhor desempenho ante maio em termos absolutos, 14,2%, mas só respondem por 4% do indicador geral. Com a recuperação parcial de junho, o saldo da pandemia para essa atividade é uma retração de 51,3%.
“Os serviços às famílias precisariam crescer 105,2% em julho para repor a queda durante a crise. Por isso, não vejo como poderiam se recuperar na velocidade do varejo. Impedidas de ir a restaurantes, as pessoas intensificaram as compras em supermercados”, diz Rodrigo Lobo, gerente da pesquisa do IBGE.
Atividade que puxou o avanço dos serviços em junho, transportes ainda têm retração acumulada de 16,3% entre março e junho, que chega a perda de 63,7% no caso do transporte aéreo, o mais afetado. Para se recuperar já em julho, o setor aéreo teria de crescer 175,3% na margem, dizem técnicos do IBGE.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Gabriel Vasconcelos e Ana Conceição - do Rio e de São Paulo, 14/08/2020

