Um levantamento com 32 mil pessoas, de 17 países (incluindo o Brasil), mostra que 64% delas tiveram um impacto na vida profissional com a pandemia. Na pesquisa do ADP Research Institute, obtida pelo Valor, 28% dos entrevistados disseram ter ficado sem emprego, temporária ou permanentemente ou passaram por dispensa temporária parcialmente remunerada. Quase um entre quatro (23%) teve uma redução salarial, enquanto 22% tiveram as suas responsabilidades reduzidas.
A geração Z foi a que mais sentiu os efeitos, com 78% dos trabalhadores de 18-24 anos relatando um impacto negativo. “Mesmo entre aqueles que mantiveram empregos, a percepção é que houve um movimento grande de introspecção, com as pessoas se questionando se estavam no caminho certo, quais são seus objetivos e o que querem fazer para o resto da vida”, avalia Mariane Guerra, vice-presidente de recursos humanos da ADP na América Latina.
A sobrecarga também apareceu no estudo. Quase metade (46%) dos entrevistados afirmaram que assumiram responsabilidades adicionais no trabalho. As horas extras não remuneradas alcançaram a média de 9,2 horas por semana, um aumento acentuado em comparação às 7,3 horas indicadas na edição do ano passado da pesquisa.
No recorte América Latina, a proporção de trabalho extra não remunerado também aumentou, com a média em toda a região alcançando 6,5 horas por semana, contra 4,5 antes da pandemia. Segundo o estudo, na perspectiva global, o número de “horas gratuitas” fornecidas aos empregadores é maior entre os trabalhadores híbridos (que dividem o tempo de trabalho entre o escritório e a casa).
“É evidente que houve aumento da carga de trabalho, seja por redução no quadro de empregados, seja por acúmulo de tarefas. Mas acho também que há um efeito de estresse da pandemia, do isolamento social, de um home office que não é o home office normal e que trouxe também o acúmulo de tarefas domésticas”, diz Guerra.
Por outro lado, quase sete em cada dez (68%) trabalhadores afirmaram que receberam algum tipo de aumento ou bônus por conta de mais trabalho ou novas responsabilidades.
Outro dado que chama atenção é que 63% dos entrevistados na América Latina afirmam que a pandemia os forçou a fazer escolhas ou concessões entre vida pessoal e profissional. No Brasil, na Argentina e no Chile, equilibrar o trabalho e as necessidades da família foi o maior desafio no período pandêmico (22% afirmaram isso), mais do que manter a saúde (18%), questão considerada mais importante globalmente.
O estudo também aponta que 67% dos profissionais sentem que podem se beneficiar de acordos de trabalho flexíveis, contra 26% que apontavam o mesmo antes da pandemia. Praticamente a metade (47%) afirma que seus gestores permitem uma flexibilidade maior do que a oferecida na política da empresa no pré-pandemia.
Mais do que ter e oferecer uma política oficial, Guerra analisa que as empresas devem se atentar se a flexibilidade também está sendo praticada e bem gerenciada - e, nesse sentido, o papel do líder é fundamental, afirma. Um índice significativo do estudo (18% de trabalhadores com filhos e 25% sem) afirma que seus gestores lhe permitem menos flexibilidade do que o que é determinado pela empresa.
Fonte: Valor Econômico - Carreira, por Barbara Bigarelli, 09/08/2021

