A alavanca maior do crescimento brasileiro, após nova pressão imposta pela pandemia, terá de vir da política e do diagnóstico realista sobre o país, onde a produtividade é pequena, desigualdades têm piorado e a baixa confiança é entrave, avalia Arminio Fraga, sócio-fundador da Gávea Investimentos. Ao participar ontem da Live do Valor, o ex-presidente do Banco Central afirmou ainda que a taxa Selic pode chegar a zero, mas isso não seria um bom sinal sobre como anda a economia.

Com a expansão fiscal “colossal” na crise - e que vai deixar sequelas - não é de se estranhar que haja alguma manutenção da atividade, mas o consenso ainda aponta para retração em torno de 6% neste ano, “uma enorme recessão”, e os últimos 40 anos sinalizam uma fragilidade maior, do “modelo de nação”, disse Arminio. “Minha experiência com crise é que nunca sabemos onde é o fundo do poço. Não estou otimista, mas é cedo para saber o veredicto final.”

Sem um reconfiguração política, ainda que existam dúvidas sobre seu caráter, porém, “não vamos a lugar nenhum”, segundo o economista. “Nossa saída, em última instância, terá de vir da política para a economia.” Por ora, no entanto, o que se vê são Poderes se digladiando. “Não é um bom momento”, ele disse. “Em vez de um pêndulo na política, parece que temos uma bola de demolição. Acho que as coisas funcionam melhor quando estão mais próximas do centro.”

Arminio nota que o Congresso até conduz agenda de reformas, mas isso, na verdade, reforçaria que o país precisa de “uma coisa maior”. “Uma democracia uma pouco mais calma, que olhe mais para o longo prazo, que faça as coisas de uma forma que inspire confiança”, disse, citando a importância também de temas “não econômicos”, como políticas ambientais, armamentícias, de saúde e educação. “É um sinal que tem de vir de cima e que no momento não está aparecendo.”

Para Arminio, é preciso abordar a situação do Brasil de forma “holística”, mas em um debate “dentro de um escopo razoável”, incluindo controle macroeconômico e fiscal - “muito fragilizado”, ele ressaltou -, solidariedade, como transferência direta de renda e investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), e atenção à produtividade. “Todas essas receitas são compatíveis”, disse.

Se “as coisas vão mal, talvez até bem mal”, conforme ele afirmou, por outro lado, significa que há espaço para melhorar. “Perduro minha esperança nisso, que achemos um modelo social-democrata com liberalismo na produção e solidariedade na gestão”, disse. É uma agenda “dificílima”, ele reconheceu, sugerindo que sejam atacados os “problemas grandes”, como a necessidade de uma reforma do Estado “para ontem”, gastos ainda elevados com Previdência e funcionalismo e um ambiente de negócios que deixa o investimento no país “muito amarrado”. “Uma vez que se começa a atacar essas questões para valer, a economia destrava. Mas hoje isso não está claro, as coisas não estão acontecendo. Do lado político, deixa bastante a desejar”, afirmou.

Sobre a desigualdade “grotesca” no país, Arminio citou números que mostram que os 10% mais ricos da população ficam com 43% da renda. Além disso, comentou que a renda per capita no Brasil dividida pela renda per capita americana nos últimos 40 anos recuou 20%, ou seja, o Brasil cresceu bem menos que os EUA.

“Vamos atrás das áreas onde parece que está sobrando dinheiro para colocar em áreas onde é necessário”, ele disse, ponderando que economistas apresentam caminhos, mas, no fim, o “domínio” das decisões “é do político”.

No âmbito de reformas tributárias, por exemplo, Arminio disse que o fim de deduções no Imposto de Renda, como de gastos em saúde, “faz sentido”, mas é preciso cautela ao falar sobre diminuição de alíquotas. Ele afirmou também que há buracos na tributação da renda, mas taxações elevadíssimas - como em impostos sobre grandes fortunas - poderiam prejudicar o funcionamento da economia e até estimular a saída de recursos.

Diante da magnitude da crise, Arminio avaliou que o Banco Central tem trabalhado muito bem tanto na política monetária tradicional quanto em medidas “criativas” de oferta de liquidez. E, com a inflação abaixo da meta, a instituição "vai testando" patamares cada vez mais baixos da Selic e “tem toda a razão para explorar o limite” de queda dos juros.

À frente do Banco Central entre os anos de 1999 e 2003, Arminou afirmou ainda que não há dogmas e “pode ser que juro chegue a zero”. Mas ele espera que o país não necessite de tanto estímulo, “porque isso mostraria que as coisas estão muito ruins”.

Um dos grandes riscos reside em um descontrole fiscal, que poderia prejudicar o ambiente de juros baixos. Para Arminio, se for necessário lá na frente aumentar os juros com a dívida pública elevada que o Brasil apresenta, isso “pode gerar um ciclo de expectativas muito perigoso”, alerta o economista. “É um risco real.”


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Anais Fernandes e Lucas Hirata - de São Paulo, 06/08/2020