A sinalização do comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom), quando o colegiado reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual para 2% ao ano, pode não ter gerado consenso sobre novos cortes da taxa, mas consolidou a percepção de que o Banco Central pretende manter os juros baixos por tempo mais longo, na visão de economistas ouvidos pelo Valor.

Os especialistas concordam também que o comitê manteve a porta aberta às reduções. “O BC vê a necessidade de cortar mais, mas sempre pensando nesse limite de juros e de estabilidade financeira”, diz Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos.

Um importante ponto do comunicado, na avaliação da economista, veio da tentativa de um “forward guidance”, ou seja, uma indicação futura de que os juros não devem subir tão cedo, somente se as expectativas de inflação de 2021 e 2022 demandarem ou houver uma mudança do regime fiscal. Para Solange, a tendência é de manutenção da Selic em 2% ao ano em 2020. “Mas, claro, o viés é de mais um corte, que acredito ser de 0,25 ponto”, diz.

Análise similar foi feita pelo economista do Santander Brasil, Maurício Oreng, para quem o plano do BC é manter os juros em 2% ao ano ou abaixo disso por um bom tempo. De acordo com o economista, nos últimos parágrafos do comunicado a autoridade indica existir possibilidade de novos cortes de juros e faz uma tentativa de “forward guidance”, com indicação futura de que os juros não devem subir tão cedo.

O diretor de pesquisa econômica do Asa Bank e ex-secretário do Tesouro, Carlos Kawall, enxerga, por outro lado, espaço para novos cortes. O Asa Bank manteve a projeção de Selic em 1,25% em 2020, mas com nova queda já no início de 2021, quando chegaria a 1%.

“As projeções condicionais [do Copom] surpreenderam para baixo, sobretudo a do cenário com juro constante a 2,25% ao ano e câmbio constante a R$ 5,20”, diz. Segundo Kawall, esse cenário tem parâmetros acima do utilizado na reunião anterior e, mesmo assim, a estimativa de inflação para 2021 fica em 3%, ou seja, abaixo da indicada no encontro de junho.

Outra casa que aposta em mais redução é a LCA. Segundo a economista sênior Thais Zara, a consultoria manteve a estimativa de Selic a 1,75% no fim de 2020. Segundo a analista, “não necessariamente na reunião de setembro, mas em outubro o BC pode fazer novo corte”.

Para Ettore Marchetti, sócio e responsável pelas estratégias de câmbio e renda fixa na Trafalgar Investimentos, “o Copom teve a preocupação de deixar a porta aberta para mais cortes, porém aumentou um pouco a barra”.

A Trafalgar estima manutenção da Selic em 2% ao ano em 2020. A estabilização da taxa básica nesse patamar é também aposta da Tendências. A consultoria mantém projeção de Selic em 2% até setembro de 2021. Segundo a diretora de macroeconomia, Alessandra Ribeiro, o Copom subiria a taxa em outubro do ano que vem e faria dois ajustes de 0,5 ponto cada, elevando o juro a 3% no fim de 2021.

O economista-chefe da JGP, Fernando Rocha, enxerga uma tentativa do BC de suavizar a trajetória da normalização dos juros. “Caso dissesse que havia encerrado o ciclo de cortes, o Copom, de certa forma, tiraria o charme de ficar aplicado em juros e a tendência seria uma abertura da curva. Como o comitê não quer isso, ele coloca essa possibilidade, mas eleva a barra para reduções adicionais.”

Ao olhar lá na frente, para 2022, diz Rocha, o comitê tenta passar a mensagem de que mira juros baixo por mais tempo. Quanto ao possível novo corte, o economista da JGP acredita que este se daria em ritmo mais moderado, de 0,125 ponto percentual ou ainda de 0,25 ponto a cada duas reuniões.

Kawall, do Asa Bank, alerta ainda para um risco de alta que o BC deixou em evidência. “Se o governo resolver abandonar o teto de gastos iríamos, provavelmente, na direção de alta de juros”. Conforme ele, “a economia pede mais estímulos monetários, mas a ideia de voltar a gastança vai impedir que isso ocorra”.

A diretora de macroeconomia da Tendências teve a mesma percepção. Há um risco tangível de o BC ter de começar a subir juros antes do esperado, se houver flexibilização do teto de gastos. “É um roteiro que todos conhecemos: começa a subir o risco, bate em câmbio, depois pressiona a inflação corrente e o BC tem de reagir com alta de juros”, diz Alessandra.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Marcelle Gutierrez, Marcelo Osakabe e Sérgio Tauhata ? de São Paulo, 06/08/2020