A variação do aluguel opera em patamar elevado no acumulado em 12 meses. A análise partiu de Paulo Picchetti, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) ao comentar evolução do Índice de Variação de Aluguéis Residenciais (IVAR).
Na taxa mensal, o indicador voltou a subir, e passou de queda de 0,48% para avanço de 0,51% de junho para julho. Porém, em 12 meses, desacelerou de 7,96% para 7,37%. Isso porque taxas maiores, referentes a iguais meses de 2022, estão sendo retiradas da série acumulada.
“Mas, em 12 meses, mesmo com essa desaceleração, a taxa ainda está muito alta”, afirmou ele. De acordo com o especialista, essa taxa não sai da faixa de 7% desde começo de 2022.
Sobre a aceleração na taxa mensal, o especialista comentou que essa evolução do indicador passa por volatilidade, visto não ser dessazonalizada. Mas, no caso do desempenho em 12 meses na variação do aluguel, uma hipótese foi levantada por ele: continuidade de recomposição real, por parte dos senhorios, nos preços do aluguel.
O mercado de locação passou por muitos percalços desde a crise na economia causada pela pandemia em 2020. Com menor ritmo de emprego causado pela crise, os senhorios não viam espaço para aumentar aluguel. No entanto, com o passar do tempo e a crise sanitária a começar ser debelada – e a economia voltando a subir -, os donos de imóvel começaram a voltar a reajustar preços de aluguel.
Para o especialista, essa recomposição da perda real sofrida pelos donos de imóveis durante a crise econômica originada da pandemia ainda persiste, tendo em vista o desempenho acumulado em 12 meses do IVAR.
“Não faz sentido você ter um IVAR a 7%, e um IPCA acumulado em 12 meses em 3,16% e um IGP-M que está em deflação em 12 meses [de 7,72%]” afirmou. Picchetti refere-se aos dois indicadores mais usados como indexadores de reajuste em aluguel, em contrato de locação, no país: o IPCA, indicador oficial de inflação do país elaborado pelo IBGE; e o IGP-M, da FGV.
Na prática, é a resiliência na economia, e em particular no setor de serviços – que representa quase 70% do PIB –, que oferece o contexto para que os senhorios continuem a efetuar esse movimento de recomposição do aluguel. “Também o mercado de trabalho opera em resiliência”, notou.
Assim, acrescentou, com economia a operar sem crise, e boa performance em vagas, os donos de imóveis sentem mais espaço para elevar preço de locação.
No entanto, ao ser questionado se a taxa em 12 meses vai continuar a operar na faixa de 7% até o fim do ano, o técnico foi cauteloso. O especialista notou que as projeções de inflação para segundo semestre são de maior pressão, ante primeiro semestre.
“Tanto que as projeções de fechamento do IPCA para 2023 estão em torno de 5%”, acrescentou.
Mas, por outro lado, ocorreu essa semana o primeiro corte na taxa básica de juros da economia em 0,5 ponto percentual. A Selic estava em 13,75% ao ano desde agosto de 2022 e, agora, foi a 13,25% ao ano. Foi o primeiro corte nos juros em três anos.
Quando a Selic cai, os juros de todo o mercado acompanham. Com juros menores, isso facilita acesso a financiamento imobiliário. Assim, muitos que vivem de locação podem deixar de alugar e tentar comprar imóvel – o que pode gerar uma relação entre oferta maior que demanda, no mercado de aluguel.
“Pode ser que esse movimento de recomposição real do aluguel perca força” admitiu, não descartando possibilidade de que isso faça a taxa em 12 meses reduzir, para faixa abaixo de 7%.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Alessandra Saraiva, Valor — Rio, 04/08/2023

