
Diante do que considera ter sido uma resposta eficaz do setor bancário e do mercado de capitais, o governo redimensionou seus planos de socorro a grandes empresas, por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “A questão fundamental foi resolvida: elas tiveram acesso a crédito com soluções privadas”, afirma fonte da equipe econômica.
De início, quatro setores receberam sinais de um auxílio mais transversal do governo: elétrico, aéreo, automotivo e varejo não alimentício. Nas primeiras semanas de pandemia, a indústria siderúrgica também foi cogitada.
Mais de cinco meses depois da chegada do novo coronavírus ao país e diante de um tombo no PIB, o socorro oficial saiu efetivamente apenas para o setor elétrico. As distribuidoras de energia, porta de entrada para os recursos que alimentam toda a cadeia (geração e transmissão), obtiveram empréstimo de R$ 14,8 bilhões para cobrir perdas com inadimplência e diferir reajustes nas contas de luz por até cinco anos.
Montadoras e grandes varejistas não serão mais alvo de ações setoriais. Para as aéreas, ainda existe a possibilidade de emissão de debêntures simples e bônus de subscrição, com negociações mais adiantadas nos casos de Azul e Gol. A situação da Latam é tida como mais complexa. O pacote, que chegaria a R$ 2 bilhões por empresa e contaria com até 60% de recursos do BNDES, tinha custo de crédito inicial estimado em TLP mais 1,9% ao ano. Depois, passou para CDI mais 4% ao ano.
Em todos esses setores, conforme a análise predominante no Ministério da Economia, houve uma série de emissões e captações feitas pelas grandes empresas que minimizaram a necessidade de operação coordenada pelo BNDES. Um integrante da equipe econômica lista: a Via Varejo (dona das bandeiras Casas Bahia e Ponto Frio) concluiu uma oferta de ações superior a R$ 4 bilhões em junho, as Lojas Americanas aprovaram emissão de debêntures no valor de R$ 500 milhões, a Soma (controladora de Farm e Animale) foi exitosa num IPO de mais de R$ 1 bilhão.
“No fim das contas, quem realmente precisava de financiamento era o varejo que fatura abaixo de R$ 300 milhões anuais”, avalia esse integrante da equipe econômica, lembrando que o segmento de médias e pequenas empresas foi contemplado pelo Programa Emergencial de Acesso a Crédito (Peac), com garantia do Fundo Garantidor de Investimentos (FGI).
É exatamente esse o diagnóstico que tem guiado o BNDES na crise: há liquidez no setor financeiro, o mercado de capitais está respondendo bem, as grandes têm conseguido captar a taxas baixas para padrões históricos, não há necessidade de apoio oficial coordenado pelo banco de desenvolvimento. Por isso, a ordem é redobrar o cuidado para que: 1) financiamentos do BNDES não sirvam só para troca de dívida mais cara por outra mais barata; e 2) o dinheiro não vá para pagamento de credores no exterior; e 2) o crédito chegue mesmo nas médias e pequenas.
As montadoras, segundo informações que circulam no governo, teriam obtido R$ 16 bilhões de crédito em bancos privados somente entre fevereiro e maio. Além disso, parte delas teria recebido aportes de suas matrizes, que já foram socorridas pelos governos nos países de origem. Nesse mesmo período (fevereiro-maio), a carteira total de empréstimos para empresas de grande porte (de todos os setores) aumentou 15% - ritmo cinco vezes superior do que para as médias e pequenas, diz a fonte.
No Ministério da Economia, comenta-se que houve um temor no começo da pandemia de que, sem socorro federal, o setor aéreo corria o risco de quebradeira diante da falta de demanda. Mas, como no varejo, soluções de mercado foram construídas em poucas semanas. Uma operação para a compra antecipada de passagens rendeu R$ 1,2 bilhão à Gol, que cancelou pedidos de aviões 737 Max da Boeing. A Azul adiou encomendas da Embraer e fechou um compartilhamento de voos com a Latam. E a Latam Airlines, por sua vez, recebeu aporte total de US$ 2,2 bilhões dos acionistas e do fundo Oaktree.
De uma queima de caixa mensal acima de R$ 200 milhões por empresa, segundo o governo, hoje as perdas do setor aéreo são uma fração do que eram no início da pandemia. A recuperação judicial da Latam em Nova York é vista em Brasília muito mais como “preventiva” do que “pré-falimentar”, ao contrário do observado com a Avianca, mas impõe complexidade maior para sua eventual participação no pacote de crédito liderado pelo BNDES.
Um exemplo citado de como o mercado acabou criando suas próprias soluções é o setor sucroalcooleiro. A linha de financiamento de R$ 3 bilhões para estocagem de etanol, anunciada pelo banco de fomento em junho, ficou sem demanda. O preço melhorou e a demanda por combustíveis saiu do fundo do poço, sem que uma temida sucessão de falências das usinas tenha ocorrido.
Nas palavras de um formulador do governo, a estratégia foi “não escolher vencedores” individualmente dentro de cada setor e deixar o mercado oferecer soluções, com casos excepcionais. Mas, onde se cogitava inicialmente um apoio maior, as grandes empresas encontraram boas alternativas e estão conseguindo fazer a travessia da crise.
“Nós já entramos na crise muito fragilizados. O dinheiro público, o recurso do trabalhador, será mais bem usado apoiando as micro, pequenas e médias empresas”, resume o integrante da equipe econômica. O BNDES, acrescenta, continuará de portas abertas para negociações bilaterais com empresas, mas elas próprias têm tratado esse crédito sem tanta urgência. “Existem pleitos das montadoras no banco, mas andando mais lentamente. Quem diz se vai ser mais ou menos rápido, quem aperta o botão do crédito são as empresas.”
Fonte: Valor Econômico -Brasil, por Daniel Rittner - Brasília, 04/08/2020

