Florestas nativas e plantadas, quando manejadas de forma sustentável para a integralidade dos serviços ecossistêmicos, geram benefícios essenciais para o planeta e suas populações. As florestas não são apenas os pulmões do planeta: elas têm um enorme potencial para se tornar uma importante fonte de bem-estar, renda e produtos renováveis como parte de uma economia global mais saudável.

No entanto, uma grande mudança de pensamento é necessária para que esse potencial - no valor de trilhões de dólares em benefícios líquidos globalmente - seja aproveitado.

Resumidamente, precisamos mudar a forma como as pessoas pensam sobre os produtos madeireiros. A madeira é renovável, reutilizável, reciclável, amiga do clima e incrivelmente versátil. É uma das matérias-primas mais antigas da humanidade mas, que graças às inovações no desenvolvimento de produtos à base de madeira, pode nos levar para o futuro, substituindo materiais fósseis e minerais com pegadas de carbono mais pesadas.

Madeira e derivados oferecem alternativas realistas ao aço e concreto. Sua produção e o processamento primário para atender à demanda por habitação na África até 2050 contribuiria com US$ 83 bilhões para a economia da região e criaria 25 milhões de empregos

Tanto a madeira sólida como o processamento da fibra da madeira são capazes de gerar vários co-produtos que tornam várias indústrias mais sustentáveis. Em maio, a Organização Meteorológica Mundial alertou que há agora uma chance de 50:50 de a temperatura média global atingir 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais nos próximos cinco anos. Precisamos de um grande esforço para mudar a forma como vivemos, e a madeira é parte da solução.

A madeira pode desempenhar um papel fundamental na substituição de plásticos de uso único, de canudos a embalagens de alimentos, como parte do movimento global para acabar com a poluição plástica.

Da mesma forma, a madeira e seus derivados oferecem alternativas realistas ao aço, concreto e fibras têxteis que são mais gentis com o planeta. No início deste ano, o XV Congresso Florestal Mundial - o maior encontro mundial sobre florestas - apelou para que todo o potencial da madeira legal e produzida de forma sustentável fosse usado para transformar o setor de construção, fornecer energia renovável e novos materiais inovadores e avançar para um bioeconomia circular e neutralidade climática.

Além disso, representantes ministeriais da Áustria, Camarões, Gabão, Japão, Peru e República da Coreia fizeram uma convocação para intensificar os esforços em promover e usar madeira sustentável dentro da estrutura mais ampla do trabalho em andamento de proteção florestal e restauração de terras degradadas.

Então, o que precisa acontecer para isso se tornar uma realidade?

Primeiro, é hora de alimentar o desejo global de evitar desastres ambientais com mensagens claras e urgentes sobre como fazê-lo. Além de comunicar os benefícios da madeira de forma mais eficaz, precisamos melhorar a compreensão da relação entre a madeira produzida de forma sustentável e legal e a floresta.

O manejo sustentável de florestas nativas e plantadas que seguem as boas práticas de manejo de solos, água, biodiversidade e os valores culturais e sócio-ambientais locais partem do princípio que a diversidade biológica deve ser conservada, seus bens e serviços, sustentáveis, e os impactos socioeconômicos, positivos. É fundamental que o público reconheça essa diferença e valorize os produtos madeireiros de origem sustentável.

Em segundo lugar, precisamos avançar mais rapidamente para economias que substituam materiais com alto teor de carbono por produtos à base de madeira, sempre que possível. Globalmente, estima-se que 3 bilhões de pessoas precisarão de novas moradias até 2030, o que se traduz em cerca de 300 milhões de novas moradias.

Como o setor de construção civil atualmente emite quase 40% das emissões globais de gases de efeito estufa relacionadas à energia, a mudança para materiais de construção inovadores à base de madeira em vez de concreto e aço pode fazer uma grande diferença para o meio ambiente. Traria benefícios adicionais para as economias e meios de subsistência: as estimativas mostram que a produção de madeira e o processamento primário para atender à demanda esperada por habitação na África até 2050 contribuiria com US$ 83 bilhões para a economia da região e criaria 25 milhões de empregos, por exemplo.

Em terceiro lugar, precisamos garantir que as florestas sejam saudáveis e prósperas como pré-requisito para uma bioeconomia circular baseada em madeira sustentável, ao coibir desmatamento, a grilagem de terras, queimadas e demais ilegalidades nas florestas. Com a expansão da agricultura responsável por quase 90% do desmatamento, isso significa abordar como as atividades agrícolas são financiadas e remover os incentivos que impulsionam o desmatamento.

Significa também coordenar projetos relativos ao clima e a restauração de terras degradadas com a produção de madeira sustentável. O chamado financiamento “verde” tem um enorme potencial para beneficiar o meio ambiente, as pessoas no campo e os investidores. E precisamos triplicar o investimento em restauração de florestas e paisagens até 2030 para cumprir metas e objetivos acordados internacionalmente.

Finalmente, governos, produtores e consumidores precisam trabalhar juntos para deter o comércio de madeira ilegal, inclusive por meio de normas transparentes de legalidade da madeira, investimentos em comando e controle, políticas de compras públicas e escolhas informadas do consumidor.

Como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação descreve em seu relatório principal, “The State of the World’s Forests 2022”, aumentar o uso sustentável de florestas e desenvolver cadeias de valor sustentáveis baseadas em florestas é fundamental para apoiar a recuperação verde e economias resilientes.

Mas devemos agir agora para fazer a diferença para as gerações futuras, reimaginando e ressignificando um dos recursos naturais mais antigos do planeta. Com madeira produzida de forma sustentável, podemos cultivar a solução.

Thais Linhares-Juvenal e Malgorzata Buszko-Briggs são, respectivamente, oficial florestal sênior e líder da divisão Florestal da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

 

Fonte: Valor Econômico - Opinião, por Thais Juvenal e Malgorzata Briggs, 01/08/2022