Envolvidas na Operação Lava­Jato, grandes empreiteiras estão dando marcha à ré no negócio de concessões de infraestrutura e, indiretamente, abrindo espaço para as médias construtoras debutarem nos próximos leilões. Donas de faturamentos "módicos", entre R$ 100 milhões e R$ 500 milhões, empreiteiras acostumadas a serem meras subcontratadas em obras das "peso pesado" se preparam para replicar o modelo de sucesso de Odebrecht, Galvão e OAS ao investirem no negócio de concessões. Esses grupos, porém, agora estão vendendo grande parte de suas fatias nesses investimentos devido às dificuldades que passaram a ter em decorrência da Lava­Jato.

Castellar Engenharia, Sanches Tripoloni, TV Técnica são algumas das que, acostumadas a fazer obras de terraplenagem e manutenção em rodovias, estudam disputar, sobretudo ­ mas não só ­, os novos leilões de estradas. A combinação de trechos menores que serão oferecidos ­ os maiores já foram abocanhados ­ e o desinteresse das grandes, enroscadas que estão em escândalos de corrupção, abriu um vácuo que caiu como uma luva para as novas entrantes.

"Hoje, as médias têm mais facilidade do que as grandes envolvidas na LavaJato para obter as garantias da concessão, tanto junto às seguradoras quanto aos bancos", diz Enzo Ferracini, diretor da área de Infraestrutura da corretora de seguros e consultoria de risco JLT Brasil. Segundo ele, esse diferencial torna as médias alvo da cobiça de grupos grandes que intencionam ter como acionistas da concessão uma empreiteira livre de problemas para tocar a obra. "Elas são hoje mais procuradas do que procuram", diz Ferracini.

A Construtora Centro Minas (CCM), uma das que mais receberam recursos diretos do Ministério dos Transportes neste ano para manutenção de trechos rodoviários ­ R$ 203 milhões no primeiro semestre ­ vai olhar o Brasil todo. "Devemos participar, é uma decisão estratégica. Mas precisamos conhecer todas as regras para saber qual a nossa capacidade de participação em função de financiamento. Estamos esperando a regulação completa", diz o diretor operacional Luiz Otávio Junqueira. Rodovias e aeroportos de  pequeno porte estão no radar.

A ida da CCM ao leilão será feita via associação com empresas do mesmo tamanho. Em 2015, a CCM faturou aproximadamente R$ 500 milhões, redução drástica ante os R$ 900 milhões de 2014. Outra do mesmo time, a Sanches Tripoloni ­ com mesmo patamar de faturamento ­ está estudando duas rodovias, sendo uma regional, no Paraná, e outra, uma federal que consta do Programa de Investimentos em Logística (PIL), na região Norte.

"Estamos fazendo o projeto sozinho e temos de arrumar alguém para participar conosco", afirmou ao Valor o presidente da construtora, Paulo Francisco Tripoloni. Os empresários pontuam que o ambiente ficará mais claro após a divulgação dos editais, que sairão apenas depois da votação do impedimento da presidente afastada Dilma Rousseff no Senado Federal. Nos últimos anos, a falta Ze segurança jurídica em alguns setores ­ como o elétrico ­ e de diálogo com o empresariado tornou o ambiente hostil a investimentos "Agora isso começa a mudar. O interesse está voltando. Mas é necessário que a MP º 727 se torne lei e que ela seja logo regulamentada", diz o sócio da área de infraestrutura do L.O. Baptista­SVMFA, Fernando Marcondes, referindose à medida provisória do governo do presidente interino Michel Temer que criou o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), em substituição ao PIl e ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Especialistas avaliam que, além de lotes menores, outras regras têm de ser flexibilizadas para que as médias empresas possam entrar. Um aspecto importante é tentar diluir os investimentos ao longo de concessão, em vez de concentrar nos primeiros anos, o que pressiona o negócio. "E melhorar a garantia jurídica da operação do crédito, porque aí o banco pode ser menos exigente na hora da concessão", diz o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), José Carlos Martins.

Apesar do cenário ainda incerto, Castellar e TV Técnica também estudam algumas rodovias federais que constam do PIL. "Dado o porte dos empreendimentos a serem concedidos, é bastante interessante juntarmos esforços com outros participantes, principalmente da área financeira, que agreguem o ′know­how′ da estrutura de capital necessária às concessões", afirma Alexandre Zamberlan, diretor técnico da Neovia Engenharia, grupo que gere as duas empresas. A estratégia é entrar com ambas no leilão, para fazer frente aos investimentos exigidos. O faturamento da Castellar em 2015 foi de R$ 282 milhões e o da TV Técnica, de R$ 113 milhões. Esta última teve participação na concessionária de rodovias Rodosul, cuja concessão já expirou.


Fonte: Valor - Mercado, por Fernanda Pire, 01/08/2016