O mercado chega à semana da reunião do Copom convencido de que a taxa Selic será mantida em 6,5% ao ano na reunião que terminará na quarta-feira, dia 1º de agosto. Mesmo com a eleição a caminho e os crescentes riscos externos, a maioria dos analistas acredita que a taxa de juros permanecerá no mesmo nível até o fim do ano. Embora muitos dos economistas consultados não descartem algum tipo de estresse nos preços de mercado, em especial no câmbio, apenas quatro de um grupo de 37 entrevistados pelo Valor esperam que o juro volte a subir ainda neste ano.
Além do fato de que a fraca atividade econômica deve limitar a alta da inflação, o cenário dos especialistas considera que, qualquer que seja o candidato vitorioso, ele terá que caminhar na direção de um ajuste fiscal, uma vez que a margem de manobra é muito pequena. E, portanto, o impacto de uma possível reação negativa dos mercados tende a ser passageiro.
Para o fim de 2019, há cenários bastante diferentes para a política monetária. A maioria - 15 economistas - espera que a Selic suba para 8% ao ano até o encerramento do próximo ano. Outros 13 esperam uma taxa ainda menor, de até 7,75%, enquanto seis analistas contam com um juro acima de 8,5%. Dois outros economistas preveem estabilidade do juro até o fim do período.
O economista-chefe da GO Associados, Luiz Fernando Castelli, acredita que o juro só volta a subir a partir de julho do próximo ano, em 0,25 ponto, e chega ao fim de 2019 em 7%. Esse cenário contempla a vitória de um candidato que prossiga com as reformas econômicas. "A vitória de um candidato da esquerda deve causar estresse momentâneo no mercado. Entretanto, a hipótese é que, independentemente de quem for eleito, a margem de manobra é baixa e será preciso avançar com as reformas. O candidato eleito deve buscar sinalizar isso rápido depois das eleições", afirma.
Para o economista-sênior do Banco MUFG Brasil, Carlos Pedroso, a Selic só volta a subir em fevereiro do ano que vem e deve atingir 8% no encerramento de 2019. Mas essa alta de juros pode, sim, ser antecipada caso um candidato não comprometido com as reformas estruturais vença a eleição. Nesse cenário alternativo, a taxa de câmbio deve chegar a R$ 4,30 no fim deste ano e pode tocar R$ 4,50 no fim de 2019. "Avaliamos que o câmbio sofrerá um forte estresse no curto prazo, mas deve acomodarse num patamar mais apreciado em relação ao pico no médio prazo", afirma. "Nessas condições, devido ao impacto gerado na inflação, o BC voltaria a apertar a política monetária para 8% ao final deste ano e para 15% no fim de 2019."
Outro fator de risco para a política monetária é a evolução do cenário internacional, afirma o economista da Modal Asset Daniel Silva. Ele diz que a Selic pode voltar a subir já em setembro ou em outubro deste ano caso ocorra uma nova rodada de piora das condições financeiras internacionais, com um ajuste mais rápido das taxas de juros nos Estados Unidos. "Caso contrário, em um cenário eleitoral com resultado positivo e internacional sem grandes surpresas (cenário contemplado em nossas projeções), esse movimento de alta deve ocorrer apenas no segundo ou no terceiro trimestre de 2019", afirma. A Modal trabalha com juro de 8% no encerramento de 2019.
O Itaú Unibanco espera que a Selic volte a subir na segunda metade de 2019 e que atinja 8% no fim do ano. Isso, a despeito da mudança no quadro internacional, que se tornou mais desafiador nos últimos meses, com os riscos para o comércio global diante da postura mais agressiva por parte do governo Trump. Os economistas do Itaú explicam que essa ameaça se soma a sinais de que a economia americana está crescendo acima de seu potencial e leva os Estados Unidos a uma situação contraditória: há riscos tanto de superaquecimento (desemprego baixo e estímulos fiscais) quanto de recessão (recuperação longa, juros em alta e riscos de comércio internacional).
"Essa mudança no ambiente internacional reduziu o apetite de risco em relação a economias emergentes e pressionou as taxas de câmbio, dentre elas o real. No entanto, o Copom vem afirmando que a política monetária não reagirá de forma automática a movimentos da moeda, as expectativas de inflação permanecem bem ancoradas e a depreciação do real (que parece ter arrefecido nos últimos dias) não está gerando efeitos secundários relevantes até o momento, de forma que não vemos uma mudança significativa no balanço de riscos para a inflação", diz o Itaú.
Fonte: Valor - Finanças, por Angela Bittencourt e Lucinda Pinto, 30/07/2018

