O desempenho do mercado de trabalho formal no Brasil voltou a surpreender em junho, com demissões em nível historicamente baixo ajudando a levar o saldo de vagas ao número menos negativo desde o início da pandemia. Para julho, economistas dizem que já existe chance de um resultado positivo, mas ponderam que ainda há dúvidas sobre como, passado o choque inicial da covid-19, o emprego vai responder à crise econômica e ao fim de programas federais de estímulo.

Em junho, as demissões com carteira assinada superaram as contratações em 10.984 vagas, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados ontem pelo Ministério da Economia. O resultado é o pior para o mês desde 2016, quando foram fechadas 91.032 vagas, mas veio bem abaixo da mediana das estimativas colhidas pelo Valor Data (-197,9 mil postos) - a previsão mais otimista falava na destruição de 58,4 mil vagas.

Foi também a segunda desaceleração consecutiva no saldo negativo mensal, que havia passado de 918.286 em abril para 350.3030 em maio. No primeiro semestre, houve fechamento líquido de cerca de 1,2 milhão de postos formais, o pior resultado para o período na série, iniciada em 1992. “É natural que isso aconteça. É a maior crise da história do país”, disse o secretário de Trabalho, Bruno Dalcolmo, ao divulgar os resultados. Ele observou que o país ainda não retomou um nível de admissões equivalente ao do ano passado, mas disse que há “claramente uma curva ascendente à medida que a economia retoma o seu passo”.

O saldo de junho é fruto de 895.460 admissões e 906.444 demissões. Especialistas chamam a atenção para a continuidade na desaceleração dos desligamentos. O número de junho deste ano foi a menor para o mês desde 2005, quando houve fechamento de 894.412 postos. As demissões recuaram 16% ante maio de 2020 e foram 24% inferiores às de junho de 2019. As admissões, por outro lado, ficaram 28% abaixo das registradas em junho do ano passado, apesar de crescerem 24% em relação a maio de 2020.

“O mercado de trabalho está com um comportamento atípico. Nas admissões, o fundo do poço foi em abril, mas a recuperação está mais devagar, como esperado. Só que há queda dos desligamentos muito forte”, diz Daniel Duque, pesquisador da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Em junho, sustentaram saldo positivo a agricultura (36.836) e a construção (17.270) - esta última uma boa surpresa, segundo Duque. “Criar 17 mil empregos na pandemia não é pouco. Parece que as empresas esperam alguma recuperação, e construção é investimento.”

Em entrevista coletiva, o secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, disse não ver risco de subnotificação no Caged, cuja metodologia mudou neste ano. Ele considerou os números “muito positivos” e disse que o Brasil “tem tudo” para ter retomada em “V” (queda brusca da atividade seguida de recuperação acelerada), como prega o ministro da Economia, Paulo Guedes. “Os números do Caged demonstram que isso é muito possível.”

Bianco afirmou que, “com as políticas públicas feitas, o Brasil tem conseguido preservar empregos” e destacou que o Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda (BEm), para redução de salário/jornada e suspensão de contratos, já alcançou 15 milhões de acordos.

Duque, do Ibre, pondera que resultado como o de junho não são “prova de eficácia” dos programas, o que exige mais análise, “mas sugere, sim, que houve bom funcionamento”. Cosmo Donato, economista da LCA Consultores, concorda, mas ressalta que é preciso diferenciar o choque pandêmico de uma crise econômica.

“Houve esse primeiro momento de restrições e isso causou muitas demissões. Mas há efeitos secundários, que vêm da crise econômica, empresas que vão fechar, demitir. Foi positivo o espaço para as medidas ajudarem a compensar demissões, mas os efeitos econômicos parecem mais profundos e a crise tende a se estender”, diz Donato. “Além disso, muito daquilo que ajudou, como auxílio emergencial e programas de emprego, é pontual, não está relacionado diretamente à capacidade de a economia crescer nos próximos meses. Mitigamos o que poderia ter sido pior no curto prazo, mas o desafio continua muito grande.”

Questionado sobre o risco de mais demissões após o fim do BEm, Bianco afirmou que o governo trabalha em várias frentes e mira o pós-pandemia. Sem definir datas, ele disse que “nos próximos dias” haverá novidades na política de emprego. “Estamos focados nos próximos passos.”

Para julho, a avaliação dos economistas é que, talvez, já se possa observar um saldo positivo. Duque, do Ibre/FGV, diz que as demissões podem cair mais, ainda que em ritmo menor, conforme a busca pelos programas se esgota. Já as admissões devem seguir seu avanço gradual. “Em termos de economia, ela está voltando a circular, deve haver mais oportunidades de emprego do que no mês anterior”, afirma Donato.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Anais Fernandes e Mariana Ribeiro - São Paulo e Brasília, 29/07/2020