A redução do custo tributário e a melhora das regras para a movimentação de bens, serviços e investimentos são o conjunto de medidas mais importante a serem adotadas pelo Brasil, aponta pesquisa que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) fez com 75 multinacionais que atuam no país e faturam de R$ 200 milhões a R$ 10 bilhões ao ano.

Numa escala de 1 a 4, esse item recebeu nota 3,8 de prioridade. Os executivos querem alinhamento ao padrão internacional das normas brasileiras para taxação de operações internacionais dentro do mesmo grupo, os chamados preços de transferência. Pedem também mais acordos de dupla tributação.

Em segundo lugar, com nota 3,6, vem a redução da burocracia para exportar bens e serviços e a implementação dos Operadores Econômicos Autorizados (OEA), que estabelece um “fast track” para o comércio internacional. O terceiro maior problema é uma combinação das barreiras tarifárias para a importação de bens e da baixa qualidade da mão de obra, entre outros itens.

“Apesar de ser um mercado grande e atraente, o Brasil pode perder a concorrência para outros países na atração de investimentos, por causa da tributação”, afirmou o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Eduardo Abijaodi. Ele ressaltou que, no pós-pandemia, a disputa por investimentos externos será acirrada.

São apenas 33 acordos destinados a proteger empresas que operam aqui e em outros países de serem tributadas duas vezes. Comparando, a África do Sul possui mais de 70. China e Índia, mais de uma centena cada um. Isso ocorre justamente porque o modelo adotado do Brasil é desalinhado com a prática mundial, segundo o gerente de Negociações Internacionais na CNI, Fabrizio Sardelli Panzini.

O exotismo da tributação brasileira desafina com normas da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que o país pretende fazer parte. Um ponto de divergência está cobrança do Imposto de Renda (IR) sobre remessas para pagamento de serviços.

O entendimento da organização é que a tributação deve ocorrer no país de onde o serviço é exportado. Mas, aqui, a prática é cobrar uma alíquota de 5% na fonte no lucro obtido pela empresa internacional fornecedora do serviço.

Panzini comentou que a Alemanha denunciou o acordo de dupla tributação que tinha com o Brasil, em 2005, entre outras razões, por causa dessa tributação.

O entendimento assinado com a França segue o padrão mundial. No entanto, disse o gerente da CNI, as empresas francesas precisaram entrar na Justiça para garantir o cumprimento da cláusula.

Outro ponto em que o Brasil destoa do padrão da OCDE é na tributação dos preços de transferência. Aqui, é aplicada uma alíquota fixa para o Imposto de Renda. Por isso, pode ocorrer de a empresa pagar aqui mais IR do que pagaria em outro país.

“O ideal seria a convergência do modelo brasileiro para o padrão internacional”, afirmou Abijaodi.

Um terceiro ponto em que o Brasil é diferente do mundo é a alíquota de 15% do IR para remessas em pagamentos de royalties e juros. O padrão é 10%. Por outro lado, o Brasil não tributa dividendos, o que é diferente da prática internacional.O gerente da CNI reconhece que o governo brasileiro tem dado passos para fazer convergir as regras da Receita Federal com as da OCDE. Porém, numa velocidade, segundo ele, aquém da desejada pelas empresas.

Outra pesquisa realizada pela CNI, especificamente com executivos de empresas do Reino Unido e da Alemanha que operam no Brasil, aponta que para 68% deles, a celebração de acordos de dupla tributação ampliaria investimentos. Para 82%, contribuiria para o incremento do comércio de serviços. E, para 55%, elevaria a aquisição de royalties.

O Brasil exportou US$ 1,1 bilhão e importou US$ 2,6 bilhões do Reino Unido em 2018. Os investimentos diretos aqui anunciados entre 2010 e 2019 chegam a US$ 16,8 bilhões.

Já com a Alemanha, o país tem um fluxo comercial que chegou a US$ 15,8 bilhões. As transações envolvendo bens de alta tecnologia somaram US$ 10,7 bilhões.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Lu Aiko Otta - Brasília, 28/07/2020